Em pior queda desde 1996, PIB teria encolhido menos com auxilio emergencial maior

Publicado originalmente no Brasil de Fato

Por Cristiane Sampaio 

Após o anúncio do encolhimento histórico de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2020, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (1), uma abordagem das análises chama a atenção em meio ao cenário de crise: a queda poderia ter sido menor, se o auxílio emergencial tivesse um valor mais alto.

O benefício de R$ 600, entretanto, que vinha sendo pago desde abril para mais de 60 milhões de pessoas em situação econômica vulnerável por conta da pandemia, deve ser reduzido pela metade.

A quantia é direcionada a trabalhadores informais, liberais e pequenos empresários que atendam aos critérios do programa. Com a transferência de renda por parte do Estado em um momento de aprofundamento da crise econômica, as famílias passam a ter poder aquisitivo para mobilizar diferentes segmentos da economia, ainda que timidamente. É o que lembra o professor Fernando Pires, coordenador do Observatório de Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“Tem uma cadeia de interconexões que seriam acionadas, se você colocasse mais recursos. Este é um pais onde qualquer recurso que você coloca leva ao aumento do PIB”,  afirma Pires, ao mencionar a crise de 2008, quando o governo Lula (2003-2010) ampliou o crédito e utilizou o aumento real do salário mínimo para fortalecer a economia na fase mais violenta da crise financeira global.

“Quando se cria uma situação econômica mais sustentável, você consegue aumentar inclusive impostos, porque eles são diretamente proporcionais à dinâmica da economia, e também às políticas sociais, entre outras coisas”, acrescenta o pesquisador. Ele pontua que a gestão Bolsonaro estaria no contrafluxo dessa tendência por ter anunciado redução do aumento real do salário mínimo para 2021 e do auxílio emergencial para os próximos quatro meses.

De acordo com o IBGE, a queda de quase 10% no PIB é o pior resultado para a economia brasileira desde 1996, quando o instituto iniciou a contagem da série histórica. Por representar a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, o PIB é uma das principais escalas de referência econômica e serve de termômetro para se acompanhar o andamento da crise. Em números objetivos, o PIB anunciado nesta terça resultou em um montante de R$ 1,653 trilhão entre abril e junho deste ano.

O IBGE aponta que a maior queda registrada se deu no consumo das famílias, que foi reduzido em 12,5% e representa 65% do PIB. Sem mencionar diretamente o auxilio emergencial, o instituto destacou que “programas de apoio financeiro do governo” fizeram a diferença por terem dado liquidez à economia.

“Isso mostra que a presença do Estado é fundamental pra evitar uma crise econômica, porque, numa época de crise, ele é único entre os entes capazes de fazer um esforço além do que a economia tem e, de fato, propor uma política econômica pra nos tirar da crise”, sublinha a assessora política Livi Gerbase, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), realçando, no entanto, que a iniciativa, sozinha, não é suficiente para sanar a crise.

Indústria, serviços e Teto dos Gastos

Os números do IBGE mostram ainda que houve quedas históricas nos setores da indústria (-12,3%) e dos serviços (-9,7%). O economista Fernando Pires recorda que a crise já se arrastava especialmente desde 2015, com agravamento maior em 2016.

“Confesso que esperava até mesmo uma queda maior na indústria. E há um processo de desmonte da indústria brasileira, que é histórico, e vem desde a década de 1990. Estamos num processo sério de desindustrialização, com queda de cadeias produtivas, etc. Acho que não caiu mais porque as classes média e alta têm alguma forma pra segurar o consumo. Quem sofre mais com isso é a população pobre”, analisa.

O cenário atual se soma aos baixos investimentos públicos, intimamente relacionados com a política do Teto dos Gastos, que limita de forma rigorosa a canalização de recursos para diferentes áreas, como educação, saúde, assistência social.

“Tem poucos gastos que ficam fora do Teto, e investimento não é um deles. No caso do Brasil, isso está acontecendo. Outro elemento é, de fato, uma priorização do governo em outros setores. O governo não se coloca como agente que vai nos tirar da crise”, encerra Livi Gerbase.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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