Em termos de autoritarismo e truculência, nenhum ministro supera Paulo Guedes. Por Luis Felipe Miguel

Paulo Guedes (Carl de Souza/AFP)

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POR LUIS FELIPE MIGUEL

A concorrência é forte, mas está cada vez mais evidente: em termos de autoritarismo e truculência, nenhum ministro do atual governo supera Paulo Guedes.

Ontem, depois da péssima repercussão da fala do dia anterior, em que sugerira a volta do AI-5, Guedes tentou se passar por democrata. Foi um caso clássico de “a emenda saiu pior do que o soneto”.

Guedes defendeu uma “democracia responsável”, cujas características definidoras ele mesmo enunciou: (a) o povo não pode se manifestar; (b) o objetivo do Estado é agradar aos investidores.

Deu uma lição sobre “o jogo da democracia”: se você está descontente, “espere a próxima eleição”. Não é inovador, reconheço; é o beabá dos “democratas” que têm aversão à participação política popular. Mas é no minimo curioso, vindo do homem forte de um governo que é fruto direto do golpe que derrubou uma presidente legítima.

E, para mostrar como democracia e bolsonarismo se confundem, fez quase poesia. “A democracia brasileira nunca foi tão forte, poderosa, vibrante, não há escândalo de corrupção, os crimes caíram”.

“Não há escândalo de corrupção”, diz o Guedes dos fundos de pensão, colega do Salles do Tietê, do Antônio dos laranjais e do Onyx da JBS no ministério dos Bolsonaros das rachadinhas.

O autoritarismo não é uma peculiaridade de Guedes. É um traço constitutivo do programa neoliberal que ele encarna. Para destruir tudo o que se construiu de proteção social, para desfazer os frutos de décadas de luta da classe trabalhadora e de outros grupos dominados, para mover o Estado para a defesa sem disfarces dos interesses do capital, só anulando os mecanismos de intervenção política democrática.

Uma visão convencional apresenta a democracia como um terreno “neutro” para a resolução das disputas políticas. É a visão que vai, lá adiante, pregar a abolição das proteções ao trabalho ou das políticas de cotas, por exemplo, por serem políticas que tomam partido e, portanto, contrariam essa neutralidade.

No entanto, a democracia é o resultado da luta dos dominados para terem voz na sociedade. É uma tentativa de controle ou contenção da dominação social. Os gregos antigos já sabiam disso: a democracia era definida como “o governo dos pobres”.

Foi a luta dos trabalhadores que obrigou a classe dominante às mudanças no exercício do poder político que acabaram por produzir a democracia liberal, de tipo ocidental, que floresceu no século XX. Ela sempre expressou o equilíbrio instável entre dominação de classe e soberania popular nominal, que na prática obrigava a burguesia a comprar a paz social com concessões aos dominados.

O neoliberalismo é o programa da classe dominante que não quer mais fazer concessões. E que, para isso, tem que anular a possibilidade de que os interesses das maiorias se façam ouvir no processo decisório.

É, em outras palavras, a explicitação da incompatibilidade de fundo entre o capitalismo e a democracia.

Esse é o programa de Guedes. Ele é, como todos sabemos, nosso “Chicago boy”. E Bolsonaro é o nosso Pinochet, aquele que se propõe a mobilizar a violência necessária para que o projeto neoliberal se concretize.

A utopia deles é o Chile: uma profunda, rápida e autoritária transformação das estruturas da sociedade e do Estado, que pode ser seguida por uma “normalização” democrática muito contida, mas duradoura, com um tecido social tão esgarçado que encontra dificuldade de produzir resistência de massa e um jogo político tão enquadrado que até “socialistas” podem chegar ao poder sem ameaçar a herança neoliberal.

Acho que é por isso que eles têm essa obsessão contra as manifestações no Chile, que o próprio Guedes não cansa de evocar. A débâcle do modelo chileno atinge em cheio suas próprias ilusões.

É essa a única coisa que me consola no discurso do ministro: seu temor de que o Brasil viva em breve uma onda de protestos similar à do Chile. Torço, com todas as minhas forças, para que ele esteja certo.

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