Empresa de PM investigada por ligação com PCC atuou na campanha de Russomanno

Atualizado em 18 de fevereiro de 2026 às 19:57
O deputado federal Celso Russomanno (Republicanos). Foto: Reprodução

A empresa AM3 Segurança e Vigilância, investigada por fornecer proteção a empresários acusados de ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital), atuou na campanha de Celso Russomanno (Republicanos) à Prefeitura de São Paulo em 2016 e recebeu R$ 375 mil pelo serviço, conforme informações do Estadão.

Segundo o deputado, a segurança era feita por policiais militares em horário de folga, prática considerada ilegal. A companhia está registrada em nome da mãe do tenente-coronel José Henrique Martins Flores, alvo de buscas na Operação Kratos.

De acordo com relatório do Centro de Inteligência da Polícia Militar, a empresa emitiu notas fiscais para justificar pagamentos a policiais que atuavam na segurança de empresários suspeitos de vínculos com o Primeiro Comando da Capital.

O caso levou à abertura de investigação pela Corregedoria da PM, e os sigilos bancário e fiscal da AM3 foram quebrados pela Justiça Militar, além de buscas na sede da empresa em Santana.

A sede da AM3, na Rua da Força Pública, em Santana. Foto: Ministério Público / Reprodução

O documento também registra suspeitas antigas de que o oficial já realizava serviços ilegais de segurança desde 2006, incluindo atuação em eventos como o Carnafacul, quando teria sido surpreendido por um major, além de denúncias posteriores, em 2012, por atividades semelhantes no Anhembi.

Russomanno afirmou que contratou a empresa por causa de ameaças, inclusive de criminosos ligados à facção, e disse que, à época, não havia nada que desabonasse a companhia e que foram apresentadas certidões de regularidade com a Receita e a Previdência. “Eles ofereceram policiais para trabalhar para a gente que faziam bico no horário de folga”, declarou ao Estadão.

Operação Kratos e conexões políticas

O relatório cita ainda proximidade do tenente-coronel com políticos e participação em campanhas eleitorais, como a do então deputado Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo em 2012.

“Trabalha na campanha eleitoral de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo e há comentários de que está aliciando policiais militares da Assessoria Policial do Tribunal de Justiça para auxiliarem na campanha pagando R$ 300. É amigo particular de Chalita e do padre Fábio de Mello”, afirma o documento.

A investigação também aponta indícios de que Martins exercia atividade fora da corporação na AM3 e mantinha contatos com políticos interessados em candidaturas, além de ter patrimônio monitorado pela corporação, incluindo um apartamento avaliado em R$ 3 milhões, onde viveria com o marido, Rafael Freire Bezerra da Silva.

Em nome dele está registrada a empresa Pro Mais Facilities, também investigada e alvo de buscas, com certidão incluída no processo para demonstrar a ligação entre o oficial e a companhia.

O tenente-coronel José Henrique Martins Flores. Foto: Polícia Militar / Reprodução

Proteção a empresários e desdobramentos

A Operação Kratos prendeu policiais acusados de integrar esquema de proteção aos empresários Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té, diretores da empresa de ônibus Transwolff. A companhia teve contrato com a Prefeitura de São Paulo cancelado após acusação de lavagem de dinheiro para o PCC e foi alvo da Operação Fim da Linha, do Gaeco, em 2024.

Organograma feito pela Corregedoria da Polícia Militar no qual são listados sets PMs investigados, entre os quais o tenente-coronel Martins Flores e o capitão Alexandre, além de Pandora e de Té, dois diretores da empresa Transwolff que eram protegidos pelos PMs Foto: Reprodução

Uma nota fiscal da AM3 foi usada por um capitão para justificar pagamentos aos policiais envolvidos, e a Corregedoria constatou que funcionários da empresa continuaram prestando serviços à Transwolff até janeiro deste ano, dois anos após a investigação sobre a ligação com a facção.

Conversas interceptadas também mencionam ligação dos policiais com o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite, citado como “chefe Milton”, referência que, segundo a Corregedoria, seria ao ex-vereador. Milton Leite negou conhecer os agentes ou utilizar seus serviços de segurança enquanto ocupava o cargo.