
A SentinelX, responsável pela plataforma digital do Smart Sampa, foi criada 29 dias após a assinatura do contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o consórcio Smart City SP, em agosto de 2023. A informação consta de registros da Junta Comercial paulista consultados pela Folha de S.Paulo.
A empresa passou a integrar o consórcio no lugar da Camerite, fornecedora de tecnologia de câmeras de vigilância de Joinville (SC). A mudança foi aprovada pela gestão municipal em outubro de 2024, quando o programa já havia sido inaugurado. O nome SentinelX aparece nos sistemas usados por agentes de segurança para consultar imagens e dados associados ao reconhecimento facial.
A plataforma está no centro de reportagens sobre acessos indevidos a câmeras e informações restritas. Informações disponíveis no site da companhia indicam que o acesso não autorizado revelado nas apurações ocorreu por meio de sua tecnologia.

A Prefeitura de São Paulo negou fragilidades nos mecanismos de segurança do programa e atribuiu o episódio a um vazamento ilegal de dados cometido por um servidor da Guarda Civil Metropolitana, entre mais de 7.500 agentes com acesso. Procuradas por email, telefonemas e mensagens, a SentinelX e o consórcio Smart City SP não responderam à reportagem.
O professor Marcelo Proença, da FGV Law, afirmou que alterações na composição de consórcios contratados pelo poder público são vedadas como regra e admitidas excepcionalmente, conforme o entendimento do Tribunal de Contas da União. Para ele, contratos que envolvem informações sensíveis exigem atenção ao histórico e à capacidade dos prestadores. O especialista também apontou que o Cade pode analisar atos posteriores à licitação se houver suspeita de restrição à concorrência.
Outra questão envolve as credenciais apresentadas pela SentinelX. A companhia se anunciava em seu site como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e parceira da Microsoft. Segundo a Folha, porém, não consta da lista de empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa. Há um produto chamado SentinelX registrado em nome da Bembras Integração e Engenharia, que tem um sócio em comum com a companhia, mas não possui participação societária nela.
A marca de EED foi retirada do site entre 22 e 23 de outubro, depois que a Folha questionou o Ministério da Defesa, que não respondeu ao jornal. A Microsoft Brasil informou que, após verificações internas, não identificou a SentinelX entre as participantes de seu programa de parceiros.
Na abertura, a SentinelX pertencia ao advogado Kayan Rodrigues Capelozzi Adaide. Três novos sócios ingressaram em maio de 2025, quando a empresa já integrava o consórcio. Entre eles está Jorge Marques Moura, também sócio da CLD, antiga Consladel, outra integrante do Smart City SP.
Moura e a CLD foram alvo de acusações de prejuízo à Prefeitura de Manaus, caso em que houve bloqueio de bens em 2015. A ação foi posteriormente arquivada por irregularidade na apresentação da denúncia; neste ano, o STJ reconheceu a prescrição. Em São Paulo, a gestão Nunes decidiu substituir a coordenação do programa após as revelações sobre acessos indevidos.