
Uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro pagou R$ 67,5 milhões por um projeto de energia eólica pertencente a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro. A negociação envolveu a compra de 90% do empreendimento e incluiu, como principal forma de pagamento, a entrega de um apartamento avaliado em R$ 50 milhões, localizado em São Paulo.
O negócio foi fechado em fevereiro de 2024, pouco mais de um ano após Fábio Faria deixar o ministério. Pela legislação, ex-ministros são considerados Pessoas Expostas Politicamente (PEP) por até cinco anos depois de sair do cargo. Isso não impede operações privadas, mas impõe um padrão mais elevado de transparência, conforme regras do Coaf, que determinam “especial atenção” a esse tipo de transação.
Em nota, Faria afirmou que “não conhecia nem teve qualquer interação com a adquirente das cotas do empreendimento durante o exercício de suas atividades políticas” e que as partes só se conheceram cerca de um ano após o fim de sua atuação pública.
Negociação e empresa usada por Vorcaro
A negociação foi conduzida por meio da empresa Super Empreendimentos e Participações, ligada a Vorcaro. Segundo investigação da Procuradoria-Geral da República, a Super era usada para desviar patrimônio do Banco Master para o banqueiro.
À época do negócio, a empresa era dirigida por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que participou dos trâmites finais da operação, de acordo com documentos apresentados por Fábio Faria.
Zettel foi preso e depois solto em janeiro, durante a segunda fase da Operação Compliance Zero. Segundo manifestação da defesa de Vorcaro, o cunhado segue como sócio da Super, embora tenha deixado a diretoria no segundo semestre de 2024.
“A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que a relação de seu cliente com a empresa Super é comercial, envolvendo operações de compra e venda de ativos e contratos de inquilinato. Ressalta, ainda, que um dos sócios da empresa é cunhado de Vorcaro, fato de conhecimento público”, diz a nota.

Contrato de gaveta e ausência de registro
Documentos indicam que Super e Fábio Faria assinaram um “contrato de cessão de quotas sociais” e se tornaram sócios da Fazenda São Pedro Geradora de Energia SPE, com 90% das quotas para a empresa ligada a Vorcaro e 10% para o ex-ministro. Para que a mudança tivesse validade jurídica, seria necessário registrá-la na Junta Comercial do Rio Grande do Norte.
Dois anos depois, porém, a SPE continua registrada apenas em nome de Fábio Faria, com capital social de R$ 1.000. Na prática, a transação ocorreu por meio de um contrato de gaveta. O ex-ministro afirma que a obrigação de formalizar o registro era da Super. Nesse período, não houve qualquer avanço no desenvolvimento do projeto.
Como parte do pagamento, a Super entregou a Fábio Faria um apartamento avaliado em R$ 50 milhões, situado na região da Avenida Faria Lima. O imóvel tem 818 metros quadrados de área privativa, cinco suítes, sete banheiros e onze vagas de garagem, em um edifício com apenas 16 unidades, próximo ao Clube Pinheiros e ao Shopping Iguatemi.
O apartamento não chegou a ser oficialmente transferido para o nome do ex-ministro, mas a operação não foi ocultada: Faria pagou o ITBI, segundo documentos apresentados. Em setembro, ele revendeu o imóvel por R$ 54 milhões a uma empresa do Grupo Esfera, do empresário João Camargo.
Do total, R$ 24 milhões foram pagos à vista, enquanto os R$ 30 milhões restantes foram parcelados em doze prestações mensais de R$ 2,5 milhões.

Histórico imobiliário da Super
Essa não foi a primeira operação imobiliária da Super envolvendo interesses de Vorcaro. Em 2022, a empresa comprou o apartamento de R$ 50 milhões onde o banqueiro mora em São Paulo. Em 2024, adquiriu a casa de R$ 36 milhões usada por ele em Brasília.
No mesmo ano, a Super doou um apartamento de R$ 4 milhões a uma mulher que se apresenta como “sugar baby” e responde por lavagem de dinheiro, sendo defendida por um advogado que também atua para Vorcaro.
Desde 2021, a Super adquiriu 19 imóveis, que juntos somam mais de R$ 300 milhões, segundo levantamento do UOL. A empresa era controlada pelo fundo de investimentos Termópilas, investigado pela Polícia Federal por suspeita de participação na fraude do Banco Master. Em 2024, o fundo declarou ter repassado R$ 1,6 bilhão à Super.
Projeto de energia travado
O investimento no projeto de Fábio Faria é o primeiro caso conhecido de atuação da Super no setor de energia. Apesar disso, dois anos após a negociação, nenhuma atividade foi desenvolvida no empreendimento.
O projeto está localizado no Rio Grande do Norte, em uma área pertencente à família de Fábio Faria há pelo menos três gerações, entre dois parques eólicos já instalados, em uma região próxima ao mar e com ventos fortes. A previsão inicial era de geração de 240 megawatts.
O principal entrave, porém, é a falta de capacidade da rede elétrica para escoar a energia produzida. A região opera no limite da transmissão, e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não tem autorizado novas conexões, risco apontado inclusive em laudo contratado por Faria em 2022. Isso significa que, mesmo com a instalação das torres, seria possível gerar energia, mas não transmiti-la à rede nacional.
Esse gargalo afastou investidores. Antes da venda para Vorcaro, Fábio Faria tentou negociar o projeto com outros grupos, sem sucesso. Ele contesta a avaliação atual e afirma que, em 2024, havia previsão de liberação do ponto de conexão entre 2028 e 2029.
