Empresários abrem dissidência na Fiesp e reinado do bolsonarista Skaf pode acabar

Em artigo publicado na Folha, o vice-presidente da Fiesp, a federação das indústrias de São Paulo, abre a mais relevante dissidência do bolsonarista Paulo Skaf.

Ele diz que entidade não pode servir de trampolim para aspirações políticas e é preciso fortalecer a indústria, com bons empregos e bons salários. Skaf, presidente da Fiesp há dois anos, foi apoiador de primeira hora do golpe de 2016, com uma campanha infame do pato amarelo. Segue o artigo:

Para buscar uma sintonia fina com os anseios democráticos do Brasil, a Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp) precisam mudar.

A pandemia impõe transformações drásticas na sociedade. As mudanças de hábito, que resultam do cumprimento dos protocolos de distanciamento social, exigem um grau de adaptação que certamente será em grande parte mantido quando a doença estiver controlada. O impacto das alterações nas relações de trabalho será duradouro. O home office, as reuniões virtuais, a coordenação remota de empreitadas, a valorização dos serviços de delivery, tudo isso são sementes de um novo mundo, ainda não totalmente conhecido, que está ganhando forma.

Talvez a transmutação mais importante seja a dos valores. A desaceleração da economia, cujo aspecto perverso é mais evidente, também despolui rios e mares, limpa o ar, reduz o número de acidentes, levando as pessoas a repensar o próprio estilo de vida. O consumidor pós-pandemia será mais consciente, mais sensível a questões ambientais e sociais. A indústria, a partir de iniciativas individuais, tem contribuído para essa sociedade nascente. Basta observar as doações que têm sido feitas, não obstante as empresas terem sido afetadas diretamente pela adversidade decorrente da pandemia.

Noto, no entanto, que há um grande descompasso entre as ações humanitárias patrocinadas pela iniciativa privada e o comportamento de avestruz de algumas lideranças que supostamente a representam. Há, entre elas, quem se recuse a ver o óbvio. Com a cabeça enfiada no solo das ambições pessoais, não enxergam a gravidade da crise, da mesma maneira que são incapazes de identificar as mudanças em curso.

Se a indústria, por meio de suas lideranças, não se conectar a uma sociedade em evolução, pagará o alto preço de ser deixada para trás. O anacronismo é pecado mortal. A defasagem de percepções entre a indústria e o país condenaria o setor à irrelevância, esta antessala escura e sinistra da derrocada.
A indústria precisa se posicionar como interlocutora qualificada. Precisa ser ouvida e respeitada por empresários de outros setores, pelas três esferas de governos, pela sociedade como um todo. Mas não é isso, infelizmente, o que tem acontecido em São Paulo, justamente o Estado onde, historicamente, o setor mais se desenvolveu. Alguns podem julgar que eu estaria pregando a divisão da representação da indústria. Pois é exatamente o contrário: ao atrair empresários que se afastaram, estou buscando a convergência.

Uma entidade empresarial de respeito não pode ser usada como joguete, como escada de aspirações estranhas a seus representados. Não pode ser manipulada por políticos nem diminuída em sua essência. Tal comportamento não faz jus ao papel da indústria. Cerca de 27% dos investimentos feitos no país têm origem na indústria. Dois terços da atividade de inovação empresarial (67%) são de responsabilidade da indústria. O setor precisa fazer valer a agenda de impulsionar as condições de competitividade, precisa continuar gerando empregos de qualidade, com salários dignos, cuidar de seus interesses de classe. Precisa, enfim, numa palavra, mudar.

Mudar porque as fronteiras entre indústria, comércio e serviços deixaram de ser claras. Mudar porque o processo de integração da indústria nacional a internacional é irreversível, e precisamos estar preparados e competitivos para isso.

Mudar porque a sobrevivência da indústria depende, de um lado, de sua modernização, de sua atualização tecnológica, e, do outro, da alteração das condições do ambiente regulatório em que está inserta.

Mudar porque o próprio sistema de representação empresarial precisa ser redefinido, e São Paulo deve ter posição de liderança neste processo. Mudar porque a governança da Fiesp/Ciesp precisa se adaptar aos novos tempos, com regras rígidas de “compliance”, limitação de mandatos e renovação periódica de suas lideranças.

Mudar porque uma grande parcela das lideranças industriais ignora a Fiesp e migrou para as associações setoriais, que tem feito um excelente trabalho! Mudar porque a Fiesp é uma instituição que precisa ser revigorada e passar a representar não correntes de opinião política, mas sim todos os industriais da capital e do interior de São Paulo, de todos os setores da indústria e de todos os tamanhos.

A hora da mudança chegou!

José Ricardo Roriz Coelho

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