Empresas dos EUA pressionam Trump contra “TariFlávio” sobre pedras e produtos do Brasil

Atualizado em 20 de junho de 2026 às 8:31
Donald Trump anunciando o tarifaço. Foto: reprodução

Empresas estadunidenses que dependem de produtos brasileiros pressionam o governo de Donald Trump a retirar mercadorias do Brasil da proposta de tarifa adicional de 25% analisada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR. A mobilização envolve companhias de pedras naturais, pisos, construção, mineração, educação e habitação, que afirmam que a sobretaxa elevaria custos dentro dos próprios EUA.

A medida foi anunciada pelo governo dos Estados Unidos após Trump receber o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca. As novas taxas ficaram conhecidas no Brasil como “TariFlávio”.

A GeoCentral, atacadista sediada em Mason, no estado de Ohio, pediu formalmente que pedras semipreciosas brasileiras entrem na lista de isenções. A empresa, controlada desde 2008 pela holding familiar CM Paula, importa do Brasil mais de 25% de seu portfólio, incluindo ametistas, ágatas, quartzos, cristais soltos e produtos prontos para o varejo vindos de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

O CEO da CM Paula, George White, disse ao g1 que a empresa compra do Brasil por necessidade comercial. “Nós não compramos do Brasil simplesmente porque queremos. Compramos porque o país oferece a melhor combinação de qualidade e custo disponível no mundo.” Segundo ele, o país reúne infraestrutura para extrair, cortar, polir e preparar pedras em escala, algo que a empresa não encontrou em outros fornecedores.

Em 2025, as exportações brasileiras da categoria de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas, brutas ou trabalhadas, somaram cerca de US$ 45,6 milhões para os EUA. Com joias e outros artigos de matérias preciosas ou semipreciosas, o valor supera US$ 71,8 milhões. A CM Paula afirmou ao USTR que cerca de 120 produtos vendidos pela GeoCentral seriam afetados e que eles “não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente fora do Brasil”.

Pedras naturais e cristais comercializados pela GeoCentral
Pedras naturais, cristais e fósseis comercializados pela GeoCentral. Foto: Reprodução.

Empresas citam falta de fornecedores equivalentes

A GeoCentral não atua sozinha na consulta pública estadunidense. Pelo menos outras 11 empresas e entidades setoriais enviaram manifestações ao USTR contra a proposta de sobretaxa sobre mercadorias brasileiras, sendo ao menos nove companhias dos Estados Unidos. Elas sustentam que muitos itens do Brasil não têm substitutos equivalentes no mercado estadunidense e que a medida reduziria a competitividade de setores dos EUA.

Entre os pedidos, a The Fantastic Floor, do estado de Washington, solicitou a exclusão de madeiras brasileiras como jatobá e cumaru, alegando que essas espécies são nativas da América do Sul e não estão disponíveis comercialmente nos EUA. A Artivo Surfaces afirmou que as madeiras precisam passar por processamento na origem para preservar qualidade e disse: “Aumentar a tarifa não beneficiará os fabricantes ou consumidores dos EUA, porque as matérias-primas são naturalmente indisponíveis e a qualidade do produto não pode ser replicada”.

A Strong Flooring Solutions declarou que espécies estadunidenses não reproduzem a aparência das madeiras brasileiras, enquanto a Wood Timber Import citou a importância de molduras e componentes de construção fabricados no Brasil para o mercado imobiliário americano. A JKG Inc., distribuidora de granito, mármore e quartzo, disse que materiais brasileiros têm características geológicas únicas e alertou: “Adicionar tarifas sobre pedras naturais do Brasil servirá apenas para elevar os custos de construção e aumentar os custos para os consumidores finais”.

A Legacy Roots Housing Initiative, organização ligada a moradias modulares e infraestrutura habitacional, afirmou que a tarifa criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos. A Lauria Dental Model pediu a retirada de modelos odontológicos usados por universidades e cursos profissionalizantes, sob o argumento de que os produtos servem ao ensino e não competem com dispositivos médicos fabricados nos EUA. A American Seed Trade Association também pediu participação na audiência pública e defendeu a exclusão de sementes para plantio.

Processo no USTR tem audiência marcada para julho

A pressão ocorre após o USTR concluir uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA, citando temas como PIX, combate ao desmatamento ilegal, pirataria e aplicação das leis anticorrupção. Com base no relatório, o órgão propôs tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros e abriu consulta pública para receber manifestações.

O histórico recente de tarifas já atingiu a GeoCentral, segundo George White. Ele afirmou que sobretaxas anteriores obrigaram a empresa a reduzir despesas, demitir funcionários, cortar investimentos em marketing e elevar preços no atacado. A companhia apresentou 117 pedidos de restituição ligados a importações do Brasil e da China, recuperou cerca de 10% dos valores devidos e espera receber o restante até o fim deste ano ou no início do próximo.

Mesmo se a tarifa adicional de 25% entrar em vigor, White disse que a GeoCentral seguirá comprando produtos brasileiros. “Continuaremos importando do Brasil. A única diferença é que teremos de arcar com custos maiores por causa das tarifas”, afirmou. Segundo o executivo, a empresa ainda não encontrou em outros países fornecedores capazes de substituir as pedras brasileiras.

O prazo para manifestações por escrito termina em 1º de julho, e o USTR marcou audiência pública para 6 de julho. A expectativa é que o processo avance até 15 de julho, data prevista para eventual implementação das novas tarifas. O Itamaraty afirma que atua na contestação técnica da investigação e na negociação diplomática com Washington, enquanto a Amcham Brasil diz que prepara nova manifestação ao USTR e defende que “Brasil e Estados Unidos possuem uma relação econômica altamente complementar e estratégica”.

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