Encontro do papa com cacique expressa a preocupação com a Amazônia

Publicado no IHU

Papa Francisco cumprimenta o cacique Raoni

Durante uma conferência em Roma na semana passada, um dos principais organizadores do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia disse que a reunião será uma oportunidade não apenas para discutir os desafios que a região enfrenta, mas também para dar às comunidades indígenas uma voz mais forte na sociedade e na Igreja.

A reportagem é de Elise Harris, publicada em Crux, 27-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma dessas oportunidades para que os indígenas sejam ouvidos ocorreu nessa segunda-feira, quando o Papa Francisco se encontrou com Raoni Metuktire, um chefe indígena mundialmente famoso e defensor da Amazônia que levou ao ouvido do papa a situação das comunidades indígenas naquela vasta região.

De acordo com um comunicado vaticano, o encontro do dia 27 de maio entre o papa e Metuktire é um exemplo da atenção de Francisco tanto pelo povo amazônico, quanto pelo ambiente, “e também o seu compromisso de salvaguardar a nossa Casa Comum” e faz parte do processo de preparação para o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, de 6 a 27 de outubro, que tem como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

A Amazônia abrange 7 milhões de quilômetros quadrados e inclui partes da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname, representando 20% do oxigênio da Terra e abriga entre 15% e 20% das suas formas de vida. Ela é também o lar de enormes injustiças; embora o Brasil tenha abolido oficialmente a escravidão em 1888, o governo reconhece que pelo menos 25.000 pessoas na Amazônia trabalham hoje sob “condições análogas à escravidão”, limpando terras e trabalhando em criadouros de gado, fazendas de soja e outras indústrias de trabalho intensivo. Alguns grupos dizem que o valor real pode ser dez vezes maior.

Também conhecido como “Chefe Raoni” ou “Ropni”, Metuktire, uma das principais vozes da Amazônia, nasceu por volta de 1930 e é cacique da tribo Kayapó, uma comunidade indígena brasileira da região dos Estados de Mato Grosso e Pará.

Raoni é facilmente distinguível pelo lábio inferior esticado por um prato de madeira pintada, chamado “botoque” pelos guerreiros Kayapó. Ele é um dos últimos homens em sua tribo a usá-lo.

Símbolo internacional da luta para preservar a floresta amazônica e suas culturas indígenas, Metuktire chamou a atenção internacional em grande parte através de uma parceria de longa data com Sting, o ex-vocalista do The Police e múltiplo vencedor do Grammy.

Em 1987, Sting foi se encontrar com Metuktire na região do Xingu, na Amazônia, e, um ano depois, em outubro de 1988, Sting se uniu ao chefe em uma coletiva de imprensa para promover a turnê da Anistia Internacional intitulada “Human Rights Now!”.

Após o evento, Sting ajudou a estabelecer a Rainforest Foundation, com o objetivo inicial de apoiar os projetos de Metuktire.

Sting se encontrou com Francisco no Vaticano durante uma audiência geral papal em 2018, depois de compor a música para o show “The Last Judgment. Michelangelo and the Secrets of the Sistine Chapel”, que estreou no Conciliazione Auditorium, que fica perto do Vaticano, em março daquele ano.

Juntos, Metuktire e Sting visitaram cerca de 17 países entre abril e junho de 1989 em uma tentativa de elevar a conscientização sobre o aumento do desmatamento na Amazônia.

Desde então, ele viajou pelo mundo para dar voz à situação dos povos indígenas na região amazônica e para lutar contra não apenas o desmatamento, mas também os projetos que põem suas terras em risco, como o projeto da barragem de Belo Monte, que foi lançado como um meio de estabelecer fontes de energia novas e estáveis no Brasil, mas que está mergulhado em polêmicas, já que o plano de construção colocou em risco os territórios indígenas às margens do rio Xingu no Brasil.

Em setembro de 2011, Metuktire falou no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra e participou da conferência de desenvolvimento sustentável da ONU Rio+20 em junho de 2012.

Falando aos jornalistas durante uma conferência no dia 16 de maio em Roma, o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, relator geral do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), que está desempenhando um papel de liderança na organização do sínodo, disse que as comunidades indígenas da Amazônia “têm o direito de serem consultadas e ouvidas”, não apenas para exibicionismo, “mas com seriedade”.

Em vez de haver pessoas que falem por elas, incluindo a Igreja, ele disse que é importante que as comunidades indígenas tomem as suas próprias decisões e tenham a sua voz nas principais discussões. Para isso, ele relembrou uma recente assembleia com comunidades indígenas no Equador, observando que, durante o debate, um líder disse: “Hoje estamos aqui para não ouvir as suas propostas, mas porque temos propostas para fazer a vocês”.

Antes do Sínodo de outubro, vários organizadores enfatizaram a necessidade de ouvir as comunidades indígenas e permitir que elas tenham uma voz principal na discussão.

Em entrevista recente ao Crux, o cardeal jesuíta Pedro Ricardo Barreto, vice-presidente da Repam e arcebispo de Huancayo, Peru, disse que a dimensão “pluriétnica” e “pluricultural” da região, que possui cerca de 345 populações indígenas diferentes que falam aproximadamente 240 idiomas diferentes, devem ser preservadas.

“As questões indígenas sempre foram adiadas – ‘Vocês são poucos, vocês são pessoas que não são da cultura ocidental’”, disse ele. “Eu diria que há uma atitude desdenhosa, ou, na maioria dos casos, de indiferença, mas eles não são levados em consideração.”

Como exemplo, ele observou quantas comunidades estão presentes na Amazônia há décadas, algumas há séculos, mas não possuem títulos de propriedade sobre suas terras. Isso significa que o Estado permite que empresas de extração estrangeiras saquem recursos, como gás, petróleo e óleo de palma.

Em muitos casos, isso leva a uma migração forçada de indígenas das suas terras ancestrais, disse ele, explicando que o chamado do Sínodo “elevou os ânimos das populações indígenas e também levantou o problema socioambiental que a Amazôniaestá vivendo”.

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