Endireita, São Paulo: o depoimento de um pessedebista histórico sobre o governo Alckmin

A nomeação de Ricardo Salles, criador do Movimento Endireita Brasil, é só mais um sintoma da falta de rumo do partido.

Salles, do Endireita Brasil, agora secretário particular do governador de São Paulo
Salles, do Endireita Brasil

Um pessedebista histórico, ex-presidente de diretório em São Paulo, escreveu para o Diário um depoimento sobre a guinada à direita do PSDB e do governado Geraldo Alckmin. Ricardo Salles está na companhia de outros conservadores que têm cada vez mais espaço em um governo que tucanos amigos classificam de “feijão com arroz” e tucanos inimigos de “medíocre”.

O advogado Ricardo Salles, criador do movimento Endireita Brasil, é a mais recente aquisição do governador de São Paulo no balaio da direita, mas não é a única e não será a última. Nomeado secretário particular do governador, Salles defende o regime militar, é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o aborto, abomina o Estado e se define o único direitista assumido do Brasil, seja lá o que isso quer dizer. Geraldo já havia imposto na presidência do diretório estadual um deputado obscuro que brilha no papel de mascate, na base de promessas, tapinha nas costas e benesses às lideranças de pequenas e médias cidades do interior. O libanês Pedro Tobias, médico radicado em Bauru e que ganhou notoriedade fazendo consultas e partos gratuitos, é conhecido no meio político por sua visão estreita de mundo e nenhum compromisso ideológico. Mas quem se importa com isso se a massa de prefeitos quer mais é saber de verbas para a Santa Casa ou a reforma das praças com fonte luminosa?

Salles, de 38 anos, é o terceiro secretário particular de Alckmin desde a posse, em janeiro de 2011. Antes dele, passaram pela função o ex-deputado Marco Antônio Castello Branco e Fábio Lepique, este oriundo da Juventude Tucana, hoje instalado no Comitê Paulista da Copa do Mundo e na tesouraria do diretório do PSDB na capital. Conservador, raso intelectualmente e cheio de formalidades, é natural que Alckmin, diferentemente da maioria dos líderes populares do país, faça questão de manter um secretário para cuidar da sua agenda (o prefeito Fernando Haddad, por exemplo, não tem essa figura).

Ignorando a base partidária e vendo Serra nos estertores da aposentadoria após a humilhante derrota na corrida para a prefeitura do ano passado, Geraldo (é assim que ele é tratado nas internas) está finalmente livre para agir por conta própria, levando seu grupo e mais o que restou do partido aonde lhe convier. Desde 2006, quando ele e Serra digladiaram nos bastidores pela candidatura à presidência, os dois vivem às turras, um puxando o tapete do outro e ambos dando sinais cada dia mais claros de que caminham para o abraço dos afogados. No comando do partido na capital, o escolhido foi o deputado federal licenciado e atual secretário Estadual de Planejamento e Desenvolvimento Regional, Júlio Semeghini. Semeghini tirou licença médica durante o fogo-cruzado da campanha municipal de 2012 – chegou a ser chamado de covarde por membros do partido, menos por virar as costas para a campanha de Serra (o que para estava longe de ser uma exceção) e mais por evitar reuniões e se omitir nos permanentes embates por espaços de poder dentro da sigla.

Geraldo
Geraldo

Chefe de um governo que os tucanos amigos classificam de “arroz com feijão” e os tucanos inimigos de “medíocre”, Geraldo aposta que, na hora do vamos ver, em 2014, vai sair às ruas e fazer prevalecer a sua fama de bom moço, o famoso picolé de xuxu. Na base da camaradagem, visitando pequenos comércios, tomando café em boteco, falando com os populares, indo a missas dia sim, outro também, garante que ninguém tira dele a chance de dirigir pela quinta vez o estado mais rico e mais importante do país. 

Para dar visibilidade e, principalmente, dinamismo à sua gestão, convenceu o veterano João Carlos Meirelles, que já ocupou a secretaria de Ciência e Tecnologia e coordenou sua campanha em 2006, a devolver o pijama à gaveta e voltar para o front, agora na condição de assessor especial de assuntos estratégicos. Legítimo representante dos quatrocentões paulistas, Doutor Meirelles, como Alckmin faz questão de tratá-lo, ostenta um bigodão impecável, usa abotoaduras douradas e uma bengala de madeira de lei e de cabo prateado. Certamente uma figura de referência para o jovem Ricardo Salles.

Agora livre da sombra de Serra, mas também sabendo que não vai contar com os serristas no ano que vem, o governador está testando sua capacidade de liderança e de estrategista. Nas duas últimas vezes em que tentou isso, em 2006 e 2008, o resultado não foi lá grande coisa, com a derrota para Lula no segundo turno da eleição presidencial e o vexame do terceiro lugar na corrida pela prefeitura com Kassab e Marta. Geraldo se considera ungido e não ouve ninguém. O staff que está sendo montado com a chegada do reacionário Salles é uma amostra de que não ouve nem Fernando Henrique Cardoso, que criticou as alianças do partido com “setores conservadores”.

Meirelles: bengala de madeira de lei com cabo prateado
Meirelles: bengala de madeira de lei com cabo prateado

Educado à moda antiga, do tipo que sempre inicia uma conversa perguntando da família, o governador de São Paulo é um adepto das historinhas de salão. Principalmente aquelas relacionadas à ascensão e queda das antigas e tradicionais famílias de São Paulo. Narra com brilho nos olhos, e riqueza de detalhes, coisas como a teia de intrigas dos herdeiros de Luiz Dumont Villares na antiga gigante metalúrgica. Também gosta de se divertir lembrando da maior vaia que já presenciou na sua vida pública. Foi no Primeiro de Maio da Força Sindical de 2005, quando 1,5 milhão de trabalhadores não deixaram o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, concluir o discurso. “O eco batia na serra da Cantareira e voltava num barulho ensurdecedor”, conta, rindo. “Uma coisa de louco”.

É notória sua amizade com Campos Machado, dono do PTB e cacique do conservadorismo mais anacrônico. Campos Machado, autointitulado herdeiro de Jânio Quadros, foi candidato a vice na aventura fracassada de Alckmin de tornar-se prefeito de São Paulo em 2008 e foi também quem iniciou o colega na leitura da obra de Jânio. (Ele guarda com carinho os livros de JQ na sua estante pessoal em seu apartamento no Morumbi). Geraldo também gosta de convidar o comediante Sérgio Mallandro para visitar sua chácara em Pindamonhangaba, para divertir a família. Mallandro confidenciou a amigos que, na verdade, é ele quem ri dos Alckmin.

Mallandro: ele faz visitas à chácara do governador
Mallandro: ele faz visitas à chácara do governador
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