Enhanced Games em Las Vegas misturam doping, bilionários transhumanistas e atletas de laboratório

Atualizado em 25 de maio de 2026 às 11:46
O nadador australiano James Magnussen com toca do Enhanced Games. Foto: reprodução

Os chamados Enhanced Games — ou Jogos Potenciados — realizados recentemente em Las Vegas surgiram como uma espécie de “Olimpíada sem antidoping”, reunindo atletas de elite em decadência, milhões de dólares em premiações e um discurso agressivo em defesa do uso de drogas para aumentar o desempenho humano.

O evento foi vendido como o “futuro do esporte”, mas é algo muito mais sombrio: uma experiência biotecnológica patrocinada por bilionários obcecados por longevidade, poder e transumanismo, transformando atletas em cobaias humanas diante das câmeras.

A definição mais direta do espírito da competição veio de Donald Trump Jr., um dos investidores do projeto. Em discurso promocional, ele afirmou: “Nosso objetivo não é quebrar um recorde mundial, mas todos os recordes mundiais.”

Trump Jr. ainda declarou que os jogos pretendem provar que substâncias para melhora de desempenho “são seguras” e podem levar o corpo humano a um nível jamais visto. Segundo ele, os Enhanced Games representam “a verdadeira competição”, “a verdadeira liberdade” e “a dominância americana no cenário mundial”, alinhando explicitamente o projeto ao universo político do movimento MAGA.

Na prática, porém, funciona como uma gigantesca operação de marketing para normalizar e vender ao grande público substâncias como testosterona, anabolizantes, hormônios de crescimento humano, EPO e estimulantes como Adderall e Modafinil — drogas utilizadas pelos atletas da competição.

Os organizadores prometem uma nova era do esporte, sem regras antidoping e sem “hipocrisia”. Mas o preço dessa experiência pode ser alto: especialistas alertam para riscos severos de infarto, AVC, falência hormonal e colapsos físicos causados pelo uso extremo dessas substâncias.

Leidy Solis, da Colômbia, comemora após competir no levantamento de peso feminino no Enhanced Games. Foto: Jae C. Hong/AP

Peter Thiel, transumanismo e o sonho da imortalidade

O principal financiador dos Enhanced Games é Peter Thiel, empresário bilionário ligado à extrema direita tecnológica do Vale do Silício. Thiel mantém relações políticas e comerciais com Javier Milei e há anos financia pesquisas ligadas ao transumanismo — corrente ideológica que defende o uso de tecnologia para superar os limites biológicos humanos.

Para Thiel, envelhecer é apenas um “problema técnico” que pode ser resolvido pela ciência. O bilionário investe milhões em empresas de biotecnologia, rejuvenescimento e experimentos voltados à extensão radical da vida humana.

Os Enhanced Games seriam mais uma peça desse projeto ideológico: usar o esporte como laboratório para testar substâncias, técnicas e protocolos de “aperfeiçoamento humano”.

Há ainda um componente racial incômodo: muitos dos atletas colocados para competir sob cargas pesadas de drogas são negros ou imigrantes sem grandes fortunas acumuladas, enquanto os financiadores são bilionários brancos interessados em pesquisas de longevidade e aprimoramento humano.

A origem

O criador do projeto é Aron D’Souza, empresário próximo de Thiel que vende a ideia de que abolir o antidoping pode libertar o potencial máximo da humanidade.

O projeto começou como uma campanha de internet e ganhou força quando o ex-nadador australiano James Magnussen, medalhista olímpico, declarou em uma entrevista que toparia “se dopar até a medula” em troca de US$ 1 milhão por um recorde mundial.

A frase chegou até D’Souza, que imediatamente transformou Magnussen no primeiro grande rosto da iniciativa.

O nadador passou a receber salário mensal e foi submetido a um protocolo extremo de substâncias. Durante meses, recebeu aplicações diárias de testosterona, peptídeos regenerativos e hormônios de crescimento.

Segundo relatos, Magnussen desenvolveu alterações físicas impressionantes. Seus braços ficaram excessivamente vascularizados, os ombros aumentaram de forma anormal e a musculatura das costas cresceu tanto que podia ser percebida mesmo de frente.

Antes das provas, usando óculos espelhados e touca preta, ele era descrito como uma figura “mais próxima de um experimento alienígena do que de um atleta”.

O próprio nadador admitia o efeito das drogas: “Minha força era absurda. Fazia agachamentos com 250 quilos. Eu me recuperava rápido demais.”

Mas o corpo começou a cobrar o preço. Apesar da recuperação muscular acelerada, Magnussen relatava exaustão mental extrema. Pouco antes da tentativa de quebrar o recorde mundial, sofreu um grave problema dentário, desenvolveu um abscesso e passou o Natal hospitalizado.

O bilionário Peter Thiel, financiador do Enhanced Games. Foto: reprodução

O fracasso do “superatleta”

O objetivo era superar o recorde mundial do brasileiro César Cielo nos 50 metros livre: 20s91.

Os organizadores contrataram árbitros profissionais e montaram uma megaestrutura privada para validar o feito. Mas o experimento começou a dar errado.

Quando Magnussen entrou na água, percebeu-se um problema inesperado: ele havia ganhado massa muscular demais.

Os 14 quilos extras prejudicavam sua flutuação e aumentavam a resistência na água. Quanto mais força fazia, mais perdia eficiência.

O “superhumano” criado em laboratório acabou nadando praticamente no mesmo nível de antes — um desastre para a campanha de marketing dos Enhanced Games.

O surgimento de Kristian Gkolomeev

Com o fracasso de Magnussen, os organizadores precisavam desesperadamente de um recorde.

Foi então que entrou em cena Kristian Gkolomeev, nadador de 31 anos que havia terminado em quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Paris.

Sem medalhas olímpicas e preocupado financeiramente com o futuro da família, Gkolomeev viu nos Enhanced Games uma chance de enriquecer rapidamente.

Ele aceitou participar do programa químico e respondeu melhor às substâncias.

Poucas semanas após começar o protocolo, fez o que os organizadores queriam: nadou os 50 metros livre em 20s89, superando o tempo histórico de César Cielo.

Mesmo sem reconhecimento oficial do recorde, o resultado virou peça central da propaganda dos Jogos Potenciados.

Segundo relatos, após sair da piscina, Gkolomeev ligou imediatamente para a esposa para avisar que haviam se tornado milionários.

Kristian Gkolomeev, que se dopou para superar o recorde do brasileiro César Cielo. Foto: reprodução

Las Vegas, espetáculo e marketing biotecnológico

Os primeiros Enhanced Games foram realizados no Resorts World, em Las Vegas, reunindo 42 atletas em provas de natação, atletismo e levantamento de peso.

Ao todo, foram distribuídos US$ 25 milhões em premiações.

Cada prova principal pagava US$ 500 mil, sendo US$ 250 mil para o vencedor. A estratégia era simples: atrair atletas frustrados, sem grandes contratos milionários, oferecendo dinheiro rápido em troca da própria imagem — e do próprio corpo.

O modelo lembra o da Red Bull, que transformou esportes radicais em plataforma publicitária. A diferença é que os Enhanced Games pretendem vender diretamente substâncias de performance humana.

O próprio D’Souza revelou posteriormente os planos de lançar a marca “Enhanced Performance Products”, uma linha de suplementos inspirada nos protocolos usados pelos atletas dopados do evento.

“O esporte libertário”

Os defensores dos Enhanced Games afirmam que o antidoping seria uma “hipocrisia”, argumentando que muitos atletas já usam substâncias ilegais sem serem pegos.

A narrativa do projeto se apoia em dados segundo os quais quase metade dos participantes do Mundial de Atletismo de 2011 teria usado drogas para melhorar desempenho, enquanto menos de 1% foi punido.

Assim, segundo os organizadores, a solução seria abolir completamente as regras.

É uma radicalização da lógica libertária: eliminar limites éticos, médicos e esportivos em nome do lucro e do desempenho máximo.

O analista Rodrigo Martin-Iglesias resumiu o problema dizendo que os atletas se tornaram “protótipos vivos”:

“O corpo do atleta vira simultaneamente laboratório e propaganda.”

Segundo ele, o recorde quebrado por Gkolomeev não demonstra “o limite humano”, mas sim “o limite do que pode ser comprado”.

O apoio do universo trumpista

A vitória eleitoral de Donald Trump deu novo impulso político ao projeto.

Os organizadores também se aproximaram de Robert F. Kennedy Jr., conhecido por posições antivacina e discursos sobre “saúde alternativa”.

D’Souza afirmou que Kennedy seria favorável à ideia de “melhoramento humano” e ao uso de substâncias para aprimorar capacidades físicas.

Em paralelo, os organizadores promoveram conferências sobre rejuvenescimento e longevidade ao lado do geneticista George Church e do empresário Bryan Johnson, famoso por gastar milhões tentando reduzir biologicamente sua idade.

O resultado foi a chamada “Primeira Declaração sobre Melhoramento Humano”, assinada por empresários, médicos e investidores obcecados pela busca da juventude eterna.

“Criando super-humanos”

A fala mais simbólica do espírito dos Enhanced Games veio do cientista esportivo Dan Turner: “Estamos criando super-humanos.”

Segundo Turner, o objetivo é descobrir quais limites impedem o ser humano de evoluir fisicamente e mentalmente.

Para críticos, trata-se de uma distopia transformada em entretenimento: bilionários do Vale do Silício financiando experimentos biotecnológicos em atletas vulneráveis, diante de plateias fascinadas por espetáculo, dinheiro e promessas de superação humana.

O objetivo final parece ir muito além de medalhas ou recordes esportivos. O que está em jogo é a tentativa de criar uma elite biológica artificialmente aprimorada — uma espécie de casta tecnológica obcecada pela ideia de vencer o envelhecimento e, um dia, comprar a própria imortalidade.

Diario do Centro do Mundo
O Diário do Centro do Mundo (DCM) é um portal brasileiro de jornalismo digital fundado em 2013. O site publica notícias e análises sobre política, economia, cultura, mídia, comportamente -- tudo o que é relevante, no Brasil e no exterior