Enquanto a Agricultura espalha agrotóxico, a Cidadania nega o avanço da ciência. Por Moisés Mendes

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS), e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) (FPA/Divulgação)

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Osmar Terra, ministro da Cidadania, é contra o plantio de maconha para o uso medicinal que poderia atenuar sofrimentos e salvar vidas, porque – diz ele – não haveria como controlar o uso para outros fins. Terra enxerga sempre o risco de todo mundo virar maconheiro ou traficante.

Mas a colega dele, a fazendeira Tereza Cristina Dias, ministra da Agricultura, libera licenças para fabricação de dezenas de venenos por mês (são quase 300 este ano), com o argumento de que vale tudo para controlar pragas e aumentar a produtividade.

As diferenças entre um e outra conduzem para as suas semelhanças e convergências. Um proíbe o que considera veneno e impede que doenças sejam tratadas, e a outra libera e permite que os venenos matem cada vez mais, porque assim acha que salva o agronegócio.

Terra e Cristina são casos exemplares da mesma família bolsonarista.

Um tentando fazer valer seu ponto de vista moralistas sobre drogas, e com isso atacando a maconha que boa parte do mundo já consome apenas com restrições, e a outra liberando à vontade, sob a imposição da indústria,
venenos que a maioria dos países já proibiu ou nunca liberou.

Terra vê toda a maconha como droga, e Cristina chama todo os venenos de defensivo. A grande questão é saber qual é o limite do poder desses dois para impor suas posições esdrúxulas, se os ministérios que chefiam são mantidos por técnicos de carreira que se dedicam há décadas aos assuntos que os bolsonaristas dizem dominar.

Técnicos concursados, muitos com longas trajetórias no serviço público, são servidores do Estado, não são de governos. Mas por que a maioria fica calada diante das atitudes de Terra e de Tereza Cristina?

Que resignação é essa que submete servidores de carreira, com boa formação, ao que é imposto pelos que estão ali apenas de passagem? Vale para os servidores do Meio Ambiente que toleram as tentativas de Ricardo Salles de acelerar a destruição da Amazônia e de vastas áreas de preservação do Rio Grande do Sul.

Vale para os servidores da Educação e do Itamaraty. Por que os técnicos, no sentido amplo de que dominam o que fazem com saber e ciência, não tentam reagir às barbaridades cometidas em nome do moralismo antimaconha, do servilismo à indústria do veneno, dos desmatadores e matadores de índios e dos terraplanistas que tomaram conta da diplomacia?

Nos últimos dias, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Magnus Osório Galvão, enfrentou não o governo, mas o próprio Bolsonaro, e manteve sua posição em favor da divulgação da devastação criminosa da Amazônia.

Sim, Galvão é dirigente nomeado (foi escolhido por Michel Temer), com mandato fixado até o ano que vem. Não é servidor estável e de carreira. Mas sua conduta deveria ser inspiradora para os que detêm estabilidade.

Precisamos de mais gente com a coragem do físico e engenheiro Ricardo Galvão, que fez com que Bolsonaro admitisse que exagerou ao questionar (sem saber nada do que questionava) os dados sobre o avanço do desmatamento.

Será que não há silêncio demais no ambiente dominado pelos bolsonaristas? O Estado foi mesmo aparelhado sem muito esforço pela extrema direita, ou a capacidade de reação dos servidores públicos hoje é a mesma da população, ou seja, quase nenhuma?

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