Enquanto Mandetta se afastou de Bolsonaro e cresceu, Regina Duarte virou politiqueira e agora só tem o pum do palhaço. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 15 de abril de 2020 às 21:24

Luiz Henrique Mandetta não é nenhuma Brastemp como ministro da Saúde, mas ele demonstrou no cargo uma dignidade que Regina Duarte não tem.

Ambos foram desautorizados em público. Na posse de Regina Duarte, Bolsonaro desfez uma suposta promessa.

Na ocasião, Regina Duarte comentou:

“O convite que me trouxe até aqui falava em porteira fechada, carta branca. Não vou esquecer não, presidente.”

Bolsonaro, por sua vez, rebateu:

“Todos os meus ministros também receberam seus ministérios sob porteira fechada. É um linguajar político. Ou seja, ele tem liberdade para escolher seu time. Obviamente, em alguns momentos, eu exerço poder de veto”.

Talvez seja esta a razão de Regina Duarte não ter conseguido trocar o presidente da Fundação Palmares, nomeado pelo antecessor, Roberto Alvim, que caiu por expor sua admiração pelo ex-ministro de Hitler Joseph Goebbels.

Se tivesse compromisso com um projeto cultural para o Brasil, Regina Duarte teria se demitido no mesmo dia da posse, quando tomou conhecimento de que seus mais de 50 anos de experiência em TV e teatro não valeriam nada diante da vontade de Jair Bolsonaro.

Mas ela não só permaneceu como dá demonstração diária que, como auxiliar de Bolsonaro, a cultura não é sua prioridade.

Apoiou o ato do dia 15 de março contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

Promoveu Osmar Terra, a quem chama de ministro, na campanha deste para derrubar Mandetta, com a propagação de informações que agradam Bolsonaro, mas não encontram respaldo científico.

E agora divulgou em sua rede social fake news para difamar a ex-primeira-dama Marisa Letícia, já falecida, em coro com os filhos de Bolsonaro.

Na campanha de Eduardo, Carlos Bolsonaro e Regina Duarte, um investimento de R$ 26 mil reais relacionado no espólio de Marisa Letícia virou R$ 256 milhões.

O PT decidiu que vai denunciar Regina Duarte à Comissão de Ética da Presidência da República e estuda também denunciá-la criminalmente.

Justo.

A ex-atriz deveria estar preocupada com um projeto cultural que fosse além do pum do palhaço, citada por ela em seu discurso de posse. Se faz política na pior definição do termo, Regina Duarte deve responder como política, ou melhor, politiqueira.

Já Mandetta optou por se manter razoavelmente conectado às balizas técnicas do combate à pandemia. Interpretando o papel dele mesmo, ou seja, médico, se destaca, daí a razão de ter hoje mais popularidade que Bolsonaro.

A alternativa a Mandetta seria fazer como Regina Duarte, e rastejar ao lado de Jair Bolsonaro em sua campanha contra a ciência e a orientação técnica da Organização Mundial de Saúde.

Ficaria menor que Bolsonaro, obviamente.

É provável que o comportamento de Mandetta atenda a algum interesse político — talvez uma candidatura a presidente em 2022 (eu apostaria na disputa do governo do Mato Grosso do Sul).

Mas o que se deve esperar de um político? Que ao exercer um cargo tenha comportamento de monge tibetano?

Claro que não.

As pessoas, não só políticos, se movem em torno de interesses.

A diferença entre ele e Regina Duarte é que a ex-atriz da Globo ainda não entendeu que um projeto político deve se subordinar aos valores que tenha acumulado na sua origem.

Como atriz, seus valores deveriam ser os da cultura, mas não é como autoridade nessa área que ela tem aparecido.

Regina Duarte virou uma militante de extrema direita com cargo de relevância em um governo com elevada taxa de reprovação. Ficou muito muito menor que Bolsonaro.

Tudo indica que vai continuar atendendo a seus líderes — talvez porque não tenha nada mais a oferecer, talvez porque tenha passado pela arte com evidente carisma, mas sem compreender a natureza de seu ofício.

Famosa, tem uma rede social com mais de 2 milhões de seguidores, e este é o único ativo que interessa ao chefe, e até agora Regina Duarte o tem colocado a seu serviço.