‘Entrevista com Escritores Mortos’ 4: Sêneca

"Nero e Seneca", do escultor espanhol Eduardo Barrón (1858 - 1911)
“Nero e Seneca”, do escultor espanhol Eduardo Barrón (1858 – 1911)

A “entrevista” abaixo faz parte de nossa série “Conversas com Escritores Mortos”. Nosso quarto entrevistado (seguindo o romancista russo Liev Tolstói, o libertino Giacomo Casanova e a escritora inglesa Virginia Woolf) é o filósofo Sêneca (4 a.C. – 65). As frases abaixo foram retiradas do ensaio “Da Tranquilidade da Alma”.

Alguns de seus ensaios mais notáveis dizem respeito ao prazer e à virtude. Como o senhor os classifica?

A virtude é algo elevado, nobre, invencível e infatigável. Já o prazer é fraco, servil, efêmero e frágil. Sua casa são os bordéis e as tabernas.

Falando desse modo, o senhor dá a entender que não é possível conciliar o prazer e a virtude.

O prazer e a virtude são elementos conciliáveis, contanto que sejamos capazes de domar o prazer.

Como é possível conciliá-los?

Devemos manter, com cuidado e serenidade, os dotes físicos e as nossas capacidades naturais como bens fugazes e de apenas um dia; não podemos ser escravos nem dominados pelas coisas exteriores e as ocasionais alegrias do corpo devem ter para nós o mesmo valor que as tropas auxiliares – isto é, servir, e não comandar.

Mas é natural que sintamos certa atração pelo prazer, e que tenhamos dificuldade em dar a ele uma posição meramente auxiliar, não é mesmo?

Não ignoro que a maior parte dos homens pensa apenas nos prazeres, e que a alma sugere prazeres e gozos exuberantes.

Isso é prejudicial?

Sim. A obsessão pelo prazer resulta em características prejudiciais a nós mesmos. O orgulho que despreza os outros; a insolência e a excessiva autoestima; o amor cego pelas próprias coisas; a euforia por pequenos e fúteis pretextos; a maledicência com a soberba violenta; a indolência e a inércia que, cansada pelo acúmulo de prazeres, acaba dormindo sobre si mesma.

E a virtude rejeita tais coisas?

Exatamente. Para tudo isso, faz-se surda. Avalia o prazer antes de aceitá-lo. Não o acolhe para simples deleite, ao contrário, fica feliz em poder fazer uso dele com moderação.

Muitos diriam que a virtude é entediante e o prazer estimulante. O que acha?

O contrário. O bem supremo é imortal – não desaparecerá e não está familiarizado com o tédio ou arrependimento. O prazer, por sua vez, quanto mais se deleita logo se extingue. Sendo limitado, fica logo satisfeito. Sujeito ao tédio, logo depois do primeiro ímpeto já se mostra cansado. Não demonstra estabilidade porque é fugaz. Assim, não pode ter consciência aquilo que aparece e desaparece como um relâmpago, destinado a findar no mesmo intante em que se faz presente. Em verdade, o fim já está próximo quando começa.

Alguma coisa a destacar?

Acho importante ressaltar que é por todas as razões que acabo de apresentar que os antigos recomendavam seguir a vida melhor e não a mais agradável, de modo que o prazer se torne um aliado e não o guia da vontade digna e honesta.

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