Entrevista de Lula com plateia não tem nada ver com jornalismo, mas com tumulto. Por Joaquim de Carvalho

Lula na Bahia com estudantes . Foto Ricardo Stuckert

Mesmo preso, Lula tem o direito de conceder entrevista, mas não a obrigação. Também tem o direito de não querer dar entrevista com plateia, principalmente com uma plateia formada por jornalistas que se dedicam a ofendê-lo e a pressionar autoridades para lhe negar direitos.

Por que o Superintendente da Polícia Federal no Paraná, Luciano Flores de Lima, ignorou questões elementares como estas, com o despacho anômalo, em que tentou regulamentar, de ofício, uma decisão do Supremo Tribunal Federal?

Foi dele a idéia de instalar uma platéia de jornalistas não autorizados por Lula para a entrevista ao El País e à Folha de S. Paulo?

Que interesse ele teria nisso?

Nenhum.

Quem manifestou interesse formal na entrevista foi o site O Antagonista, em um ofício encaminhado por seus advogados à 12a. Vara da Justiça Federal em Curitiba, com data de terça-feira.

“É certo que a r. decisão proferida não se limita ao veículo de comunicação que primeiro solicitou a entrevista (no caso, o jornal Folha de São Paulo), restando estendida também aos demais veículos jornalísticos, dentre os quais esta peticionante, que manifesta seu interesse em também entrevistar o ex-Presidente Lula”, escreveram os advogados.

O Antagonista consultou o ex-presidente ou a defesa dele sobre o interesse de dar entrevista a seus representantes?

Não, como contou Cristiano Zanin Martins hoje, ao sair da Superintendência da PF depois de uma visita a Lula.

“A decisão do Supremo era, de um lado, garantir o direito do jornalista de fazer a entrevista com o ex-presidente. De outro lado, o direito dele de dizer a quem ele quer dar entrevista. Nós entendemos que a decisão da Polícia Federal afrontou a autoridade da decisão da Suprema Corte em relação a esse segundo aspecto. Ou seja, cabe apenas e tão-somente ao ex—presidente Lula decidir a quem ele quer dar entrevista”, disse.

É óbvio, mas o elementar não ocorreu ao superintendente Flores de Lima. De novo: Por quê? Aparentemente, não é um caso de ignorância.

Parece mais uma tentativa de causar tumulto. Não seria uma lambança, seria algo deliberado, resultado de uma articulação, fruto da aliança que une, de um lado, a Lava Jato e, de outro, jornalistas empenhados em fortalecê-la como núcleo de poder.

É só seguir a cronologia. Na terça-feira, o Antagonista se dirigiu à justiça para pedir autorização para entrevistar Lula. No dia seguinte (ontem), às 11h36, o site postou a notícia de que a PF planejava transformar a entrevista em um show com platéia. Hoje, Luciano Flores divulgou o despacho, às 10h10 de hoje, com autorização para jornalistas acompanharem a entrevista. Logo depois, O Antagonista deu a notícia.

Tudo combinadinho.

Ainda bem que restam juízes em Brasília.

Ricardo Lewandowski acabou com a brincadeira, num despacho de conteúdo técnico:

“A liberdade de imprensa, apesar de ampla, deve ser conjugado com o direito fundamental de expressão, que tem caráter personalíssimo, cujo exercício se dá apenas nas condições e na extensão desejadas por seu detentor, no caso, do ex-presidente”, destacou.

 

 

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!