Entrevista no Jornal Nacional: quem deveria pedir desculpas é a Globo, não Haddad. Por Joaquim de Carvalho

“Acho que Willliam Bonner já está satisfeito. O senhor já respondeu à pergunta dele.”

Esta frase, dita pela apresentadora do Jornal Nacional, Renata Vasconcellos, deve entrar para a antologia dos momentos mais vergonhosos da imprensa brasileira.

Fernando Haddad, com seu tom professoral, tentava explicar em detalhes por que não faziam sentido algumas colocações dos jornalistas.

Nesse caso, refutava uma acusação grave, a de que teria beneficiado construtoras quando foi prefeito de São Paulo.

Bonner havia dito que Haddad “deu” uma obra ao grupo UTC, que, mais tarde, alegaria ter contribuído para sua campanha via caixa 2.

Nem o delator, nem o Jornal Nacional apresentaram provas. Mas a lama estava jogada no ar. Em outras palavras, Bonner disse que Haddad recebeu propina.

O ex-prefeito, diante da insinuação de corrupção, detalhou uma resposta para dizer que a acusação era inconsistente, e explicava o que havia feito para proteger o dinheiro público na Prefeitura.

Foi quando Renata, demonstrando impaciência, soltou a pérola:

“Acho que William Bonner já está satisfeito”.

Na verdade, como mostra essa resposta, a entrevista não era propriamente jornalística.

Era um debate, em que a dupla de jornalistas tentava extrair de Fernando Haddad uma “mea culpa”, uma “autocrítica”, um “pedido de desculpas do PT”.

A revista Fórum somou o número de interrupções feitas por Renata e Bonner durante a entrevista — 62 — contra 17 na entrevista de Geraldo Alckmin.

Quando não interrompia, William Bonner parecia debochar, fazia uma provocação. Chegou a desafiar Haddad em um momento. “O senhor fez uma pergunta e eu vou lhe responder”, disse o apresentador.

E citou números da economia na época de Dilma Rousseff.

Haddad poderia ter sido mais incisivo, na mesma medida em que era atacado. Mas Haddad é um lord — o que justifica o apelido “Tranquilão”.

Parece ser incapaz de se comportar de modo que pareça agressivo.

Num momento, Haddad chegou a esboçar uma reação incisiva, ao lembrar que a Globo é investigada.

Foi interrompido e só voltou ao assunto pouco depois, ao falar que a Receita Federal investigou a Globo.

Tudo muito rápido, como se quisessem encerrar logo o assunto, nesse caso incômodo para a Globo, mas não para Haddad.

Ele poderia dar detalhes do esquema de sonegação da Globo, radiografado por uma investigação da Receita, com um desfecho escandaloso: o processo desapareceu da Receita Federal.

Eu estive em Road Town, Ilhas Virgens Britânicas, e mostrei que nunca funcionou uma empresa que a Globo manteve naquele paraíso fiscal apenas com o objetivo de não pagar impostos no Brasil.

Haddad poderia lembrar que a sonegação é tão grave quanto a corrupção, mas, no caso da Globo e de outros sonegadores, vence a impunidade.

Os partidos têm pesquisas que mostram que atacar a Globo não tira de votos de ninguém.

O público consome a Globo, mas a esmagadora maioria sabe que ela tem interesses e lhe falta isenção.

Haddad poderia ter aproveitado o resultado dessas pesquisas, que lhe foi apresentado, e dizer que grande parte da responsabilidade pela crise no Brasil cabe à Globo.

A emissora faz um jornalismo de guerra, para destruir o PT, atribuindo todos os males do país a Lula e ao partido do ex-presidente.

Esse padrão de cobertura está descrito no processo que Lula move na ONU, em que denuncia a perseguição judicial, que só se tornou possível em razão da aliança com a mídia.

Já há no mundo uma percepção de que o Brasil, em razão da concentração de propriedade dos veículos de comunicação, não vive um período de normalidade democrática.

Por que Haddad não insistiu nisso?

Haddad, por outro lado, foi bem quando lembrou que o ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, admitiu que o partido errou ao sabotar o governo de Dilma Rousseff.

Jereissati fez esta avaliação certamente porque, no Estado que representa como senador, Lula é praticamente unanimidade positiva.

Se Jereissati sabe disso, Haddad também sabe.

Tem que lembrar sempre que atribuir a Lula e ao PT responsabilidade pela crise é injusto, principalmente partindo de uma emissora sem moral para cobrar moralidade.

A Globo se comporta como se fosse o poder moderador, ao sabatinar os candidatos como se Bonner e Renata Vasconcellos tivessem mandato para decidir quem pode ou não assumir a presidência.

Podem fazer perguntas, obviamente, mas devem ser lembrados da falta de isenção da emissora.

Todos os candidatos se submetem à sabatina porque querem a audiência da TV, conquistada com dinheiro ilícito desde a sua fundação — e há abundância de provas nesse sentido.

Mas, se não querem espinafrar a Globo numa entrevista ao vivo, o mínimo que se deve esperar deles é que não abaixem a cabeça.

E Haddad não abaixou, mas poderia (e deveria) ter sido mais incisivo e apontar, sem meias palavras, a responsabilidade que a Globo tem pela crise.

Ela criou o ambiente em que as batidas de panela deram o ritmo das condenações sem provas, e tornou possível a criação do bordão “Somos todos Cunha”, quando o ex-presidente conspirou para derrubar Dilma Rousseff.

Haddad pode fazer isso de maneira tranquila, mas é melhor para o eleitor (e para ele também) que não deixe de fazê-lo.

A Globo se comporta como partido político e deve ser tratada como partido político.

Assim ela deve ser vista. É assim que a Globo já é vista por grande parte dos eleitores.

Nesta sexta-feira, seus representantes tentaram constranger Haddad, arrancar um pedido de desculpas descabido, mas o que conseguiram foi demonstrar que são apenas provocadores

A sorte deles é que o candidato a presidente pelo PT é tranquilão.

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