
Por Rares Cocilnau*, publicado no site da FEPAL
A divulgação mais recente de documentos ligados a Jeffrey Epstein reacendeu um ritual midiático já conhecido. Nomes circulam, enquanto membros da realeza e celebridades dominam as manchetes. A indignação moral flui livremente — e de forma segura — em direções que evitam cuidadosamente as estruturas de poder.
Epstein — a pergunta não feita
Mas, por baixo do espetáculo, há uma pergunta que o comentário dominante continua a evitar, apesar de sua inevitabilidade crescente:
Epstein operava como parte de uma operação de chantagem ligada a serviços de inteligência? E, em caso afirmativo, para quem?
Isso não é uma teoria da conspiração, mas uma pergunta legítima que os próprios arquivos suscitam.
A morte de Epstein em 2019, oficialmente considerada suicídio, mas envolta em teorias conspiratórias, deixou um rastro de questões sem resposta. A ascensão do financista, de um modesto professor do Brooklyn a bilionário, sempre foi suspeita.
Como um homem sem nenhuma aptidão empresarial clara acumulou tamanha riqueza? A parceira de Epstein, Ghislaine Maxwell, filha do magnata da mídia Robert Maxwell — um ativo confirmado do Mossad que morreu em circunstâncias misteriosas em 1991 — fornece a prova cabal. Vários primeiros-ministros israelenses compareceram ao funeral de Robert Maxwell, com Shimon Peres pronunciando o elogio fúnebre.
“Armadilha sexual”
O ex-oficial da inteligência israelense Ari Ben-Menashe alegou que Epstein e Maxwell comandavam uma operação de “armadilha sexual” para o Mossad, atraindo elites para situações comprometedoras a fim de extrair favores ou impor silêncio. Isso não é uma teoria da conspiração; a alegação é ecoada por Steven Hoffberg, ex-sócio comercial de Epstein, que afirmou que Epstein frequentemente ostentava suas conexões com o Mossad.
A sobrevivente Maria Farmer descreveu a rede como um esquema de chantagem “supremacista judaico” ligado ao grupo Mega, uma camarilha de bilionários pró-Israel, entre eles Les Wexner, que presenteou Epstein com sua mansão em Manhattan.
Epstein possuía múltiplos passaportes (o kit de ferramentas de um espião) e, segundo relatos, fugiu para Israel após suas primeiras acusações em 2008, antes de garantir um extraordinário acordo de não persecução penal que lhe permitiu continuar operando livremente.
Vale também observar que Israel há muito tempo funciona como refúgio legal e jurisdicional para predadores sexuais, particularmente quando a extradição poderia expor sensibilidades de inteligência, financeiras ou diplomáticas.
Os serviços de inteligência de Israel, incluindo o Mossad, operam globalmente e de forma extrajudicial por concepção. Como todos os grandes serviços de inteligência, cultivam alavancagem, ativos e redes de influência para além dos canais diplomáticos formais. A chantagem sexual é amplamente documentada como um desses métodos ao longo da história da inteligência, da Guerra Fria aos dias atuais.
O que distingue o caso Epstein não é a possibilidade abstrata de envolvimento de inteligência, mas a convergência padronizada de fatores: riqueza inexplicável, acesso às elites, mobilidade transnacional, proteção institucional e repetidos bloqueios a investigações. Essas não são características de um “lobo solitário”, mas de uma influência estrangeira perniciosa sobre celebridades, políticos, banqueiros e magnatas da mídia.

Revelações recentes
Os arquivos divulgados mais recentemente apenas amplificam essas suspeitas. Um relatório do FBI, baseado em uma fonte confidencial, afirma que “Trump foi comprometido por Israel”, citando alavancagem por meio de Jared Kushner e Alan Dershowitz. A vítima de Epstein, Virginia Giuffre, acusou Dershowitz — um defensor ferrenho de Israel — de envolvimento, embora depois tenha retirado a acusação sob pressão legal.
A extensão do alcance de Epstein é difícil de descartar como coincidência. Na política, nas finanças, na mídia e na cultura das celebridades, os mesmos nomes — ou ao menos os mesmos círculos — reaparecem com regularidade perturbadora.
Na política, o registro já é público. O ex-presidente dos EUA Bill Clinton voou diversas vezes no jato particular de Epstein, fato reconhecido, mas persistentemente minimizado. Donald Trump, por sua vez, descreveu publicamente Epstein como um “cara fantástico” que gostava da companhia de “mulheres bonitas… do lado mais jovem”. Embora tais declarações não sejam crimes em si, são indicadores de proximidade.
O poder midiático não esteve menos envolvido. Figuras seniores de grandes impérios de radiodifusão e publicação, do ex-chefe da CBS Les Moonves ao magnata da mídia Rupert Murdoch, surgem repetidamente nos documentos e depoimentos, seja por proximidade social, intermediários compartilhados ou sobreposição financeira.
Epstein não apenas socializava com elites da mídia; ele se infiltrou em instituições capazes de moldar a cobertura, suprimir histórias e disciplinar dissidências. Quando jornalistas tentaram investigar o caso com mais agressividade, encontraram pressão legal, resistência editorial ou perda súbita de acesso.
Escondido à vista de todos
A cultura das celebridades desempenhou um papel complementar. Figuras de alto perfil transitaram pela órbita de Epstein não necessariamente como conspiradores, mas como ativos de legitimação. A fama fornecia cobertura, glamour e normalização.
A presença de nomes reconhecidos globalmente diluía suspeitas, transformando o que deveria ser um acesso alarmante em banalidade social. Ironicamente, foi a superexposição — e não o sigilo — que ofereceu a cobertura perfeita para os crimes de Epstein.
Registros de voo e listas de visitantes citam estrelas de Hollywood como Leonardo DiCaprio, Naomi Campbell e Kevin Spacey, ao lado de titãs da tecnologia como Bill Gates. Embora alguns neguem envolvimento em atividades ilícitas, sua proximidade com a teia de Epstein implica potencial alavancagem sobre influenciadores públicos que moldam o discurso cultural.
Da mesma forma, grandes instituições, incluindo JPMorgan Chase e Deutsche Bank, continuaram a prestar serviços a Epstein muito depois de todos conhecerem seu histórico criminal. Falhas internas de conformidade foram posteriormente reconhecidas, mas a questão mais ampla permanece sem resposta: como um criminoso sexual condenado manteve acesso ao sistema bancário global no mais alto nível? Quem julgou o risco aceitável — e por quê?
Alavancagem geopolítica
Mais evidências das impressões digitais do Mossad emergem nos negócios de Epstein com crises internacionais. E-mails de julho de 2011, apenas um mês antes da queda de Muammar Gaddafi, mostram Epstein e o associado Greg Brown planejando recuperar até US$ 80 bilhões em fundos líbios congelados — ativos considerados soberanos, roubados ou apropriados indevidamente por potências ocidentais.
Brown acreditava que o valor real poderia ser quatro vezes maior, chegando a US$ 320 bilhões. O plano envolvia alavancar agentes do MI6 e do Mossad para extorquir concessões da Líbia pós-guerra, ainda presumida sob controle de Gaddafi, em troca da devolução dos fundos para “reconstrução”.
Isso não era mero oportunismo; aponta para o papel de Epstein em manobras geopolíticas, utilizando redes de inteligência para ganhos financeiros e estratégicos alinhados aos interesses israelenses.
O verdadeiro escândalo Epstein
A conclusão, portanto, não é um conto moral sensacionalista sobre “pessoas más fazendo coisas más”, nem a revelação cansada de que membros da realeza, celebridades ou bilionários agem com impunidade. Isso já é evidente. Abusadores de crianças existem em todas as classes e em todas as sociedades. O que não existe em todos os lugares é um sistema que registra, arquiva, instrumentaliza e protege esse abuso para fins estratégicos.
O caso Epstein aponta não para depravação isolada, mas para uma alavancagem estruturada: uma arquitetura de chantagem na qual crimes sexuais se tornam instrumentos de poder, em vez de motivos para acusação. É por isso que a fixação em escândalos individuais — príncipes, festas e fofocas — funciona como desvio.
O verdadeiro escândalo é a evidência de uma operação ligada à inteligência, na qual o Mossad aparece repetidamente como ponto de referência, proteção e utilidade; uma operação que se infiltrou na política, nas finanças, na mídia e na cultura das celebridades.
Nem todos os abusadores são documentados e nem todos são protegidos. E nem todos se tornam intocáveis.
Epstein se tornou porque era útil. Enquanto isso não for discutido nesses termos — como uma questão de influência estrangeira — a história permanecerá presa ao espetáculo, e o sistema que ela expõe permanecerá intacto.
*Rares Cocilnau é um acadêmico da Universidade de Cambridge, no departamento de Ciências Humanas, Sociais e Políticas, com especialização em Política e Sociologia.