Era o que faltava: Merval da Folha resolve defender os pobres bilionários brasileiros. Por Luís Felipe Miguel

Vinicius Mota – o Merval da Folha de S. Paulo. Foto: Reprodução/YouTube

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor

POR LUIS FELIPE MIGUEL, cientista político

Jogo dos 7 erros

Ontem, Vinicius Mota – o Merval da Folha de S. Paulo – publicou coluna para lamentar a “caça aos bilionários”. Os pobres bilionários, como se sabe, sofrem bullying dos pobres. Felizmente sempre tem algum jornalista de bom coração disposto a defendê-los.

Ele apresenta dois hipotéticos jovens de 24 anos. O rapaz “acaba de se formar em medicina numa universidade de alta reputação e não tem nenhum bem”. A moça, “que não fez faculdade, herdou dois imóveis do pai, avaliados em R$ 1 milhão ao todo”.

O ponto do colunista é que o rapaz é o rico da dupla, já que sua formação lhe dará um alto salário, ao passo que a herança da moça, “aplicada em papéis seguros do Tesouro”, não renderá nem R$ 3 mil mensais.

No entanto, ela é vista como possuindo patrimônio e ele, não. Isto é injusto, diz Mota, lembrando que a redução nas taxas de juros tem prejudicado muito os rentistas.

(Anoto, en passant, que a coluna serve de ilustração perfeita para a leitura neofoucaultiana do neoliberalismo como ideologia que reduz cada pessoa a um suporte de capital humano.)

E daí, numa série de triplos carpados lógicos, o jornalista impugna toda a pesquisa sobre a ampliação das desigualdades no capitalismo contemporâneo, de Piketty e outros, e bombardeia as propostas de taxar o patrimônio dos bilionários.

E conclui: “a ideia, cultivada por populistas à direita e à esquerda, de que bilionários envenenam a democracia […] é uma hipótese que até pode se mostrar verdadeira, mas ainda é mal estudada e está muito longe de ser comprovada”.

É tanto disparate que é difícil crer que o autor realmente acredita no que escreveu.

Só de partida, dá para identificar 7 erros.

(1) Ainda que se possa (e se deva) discutir o valor relativo a diferentes tipos de ofício especializado e não-especializado, a remuneração dada ao trabalho recompensa um serviço prestado à sociedade ou a outras pessoas. Já a remuneração da propriedade privada é de outra natureza, baseada na exploração do trabalho alheio ou na especulação.

(2) Na narrativa fictícia de Mota, uma tem patrimônio, o outro tem formação universitária. Ou seja, é um mundo de desigualdades “desalinhadas”. No mundo real, vantagens e desvantagens tendem a se acumular em polos opostos. Escolarização e patrimônio familiar, por exemplo, apresentam alta correlação.

(3) Na narrativa fictícia de Mota, a esmagadora maioria da população – aqueles que nem herdam apartamentos, nem se tornam médicos em universidades de elite – não existe. É fácil desinflar a importância da desigualdade material apagando a existência dos pobres.

(4) Na narrativa fictícia de Mota, a minoria mais relevante para o caso também desaparece: os muito ricos. Como é que ele chega na defesa dos bilionários tendo como exemplo uma moça que herdou dois imóveis de classe média? Em que sentido essa moça poderia ser vista como representante dos muitos ricos? Toda a coluna é a ilustração daquele meme: o sujeito que é contra o imposto sobre grandes fortunas porque tem um Gol 2015.

(E é ilustração, também, daquilo que o velho Marx chamava de “robinsonada”: uma análise da sociedade que ignora o mundo social e sua história, preferindo construir contos de sujeitos isolados, como se estivessem numa ilha deserta.)

(5) Redesenhando a narrativa da coluna de forma mais realista e incluindo, de um lado, um Jorge Paulo Lemman, com seus 23 bilhões de dólares, e de outro um dos 50 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, como fica sua defesa do fair play entre patrimônio e “capital humano”? Se o jornalista sair na rua e tiver olhos para ver a aberrante desigualdade de um país em que miséria e ostentação convivem à luz do sol nas ruas das cidades, com certeza precisará mudar de discurso.

(6) Não se trata apenas de uma diferença quantitativa. Os grandes proprietários têm influência determinante no bem estar de todos e no funcionamento do Estado, já que controlam as decisões de investimento e são também credores do poder público. Justamente por isso, exercem grande poder político. Não é o caso, certamente, da herdeira de dois imóveis ou do médico recém formado.

(7) Só muita ignorância ou má fé permitem dizer que os efeitos nefastos da concentração de renda para a democracia não foram bem estudados e comprovados. Mesmo autores liberais, como Yascha Mounk, admitem que entre as causas da crise atual da democracia está o empobrecimento de uma grande parcela da população, o hiato crescente entre ricos e pobres e a influência desmedida do que ele chama de “elites econômicas” sobre o processo decisório.

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