Era o que faltava: Temer já teve nome envolvido com a máfia dos bicheiros. Por Joaquim de Carvalho

Michel Temer. Foto: Marcos Corrêa/PR

Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe pra onde ir, já dizia Sêneca no Senado Romano, no auge do império, há mais de dois mil anos.

A frase é, aparentemente, perfeita para definir Michel Temer neste que é presumivelmente seu último ano de governo.

Só que não se engane.

Temer sabe aonde quer chegar, só não sabe para onde vai levar o governo.

Mas governo, na mão dele, não é fim, é meio.

Temer se alimenta das crises desde que seu nome começou a aparecer no noticiário, no início da década de 80.

Até então, Michel Temer, um professor sem expressão na PUC, era um entre outros nomes que apareciam em anúncios de cursinhos preparatórios para concursos públicos na área jurídica.

Levado ao PMDB por Fernando Henrique Cardoso, tornou-se chefe da Procuradoria do Estado de São Paulo, no governo de Franco Montoro.

Na primeira crise de segurança, Montoro o tirou da Procuradoria e o colocou na Secretaria de Segurança Pública.

Em 1986, disputou e perdeu uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas, suplente, acabou assumindo o cargo e participou da Constituinte.

Em 1990, disputou outra vez uma vaga de deputado, e perdeu. Teve 32 mil votos, 11 mil a menos do que na eleição anterior.

Saiu do ostracismo em 1992, quando foi nomeado secretário de Segurança Pública na crise que se seguiu ao Massacre do Carandiru.

Um aspecto pouco destacado na sua carreira política é a citação do nome dele em esquemas de jogo ilegal, ao mesmo tempo em que comandava a Secretaria de Segurança Pública.

Um deputado federal de seu partido, Joaquim Carlos Del Bosco do Amaral, denunciou Temer à Justiça na década de 90 por envolvimento com o jogo do bicho.

“Ele teve o apoio dos dos piores setores policiais, inclusive daqueles ligados ao jogo do bicho, a chamada corretagem zoológica”.

Segundo a denúncia de Del Bosco do Amaral, Temer manteve um comitê político na Secretaria de Segurança Pública, para captar recursos dos bicheiros.

Em 2006, o Supremo Tribunal Federal arquivou a denúncia, sem que houvesse investigação.

O delegado-geral da Polícia Civil em São Paulo, no período em que Temer era secretário, Álvaro Luz, declarou à CPI do Bicho, em 1994, que tinha orientação para reprimir apenas os bicheiros que atuassem de maneira ostensiva.

Vem desta época a suspeita, nunca investigada, de que os contraventores contribuíam com uma caixa na Segurança Pública toda semana.

Temer é, em razão de fatos como este, um político visto como uma figura sinistra.

A julgar pelas suspeita de envolvimento com o bicho, tem um pé no submundo e outro nas altas esferas da polícia e do Judiciário.

É um erro considerá-lo politicamente débil.

Pode dar essa impressão às vezes, mas, alvejado, ele sempre dará um jeito de sobreviver.

Não é à toa que, de suspeito de envolvimento com o crime organizado em torno do jogo ilegal em São Paulo, ele tenha acumulado poder para autorizar a intervenção federal no Rio de Janeiro, com os militares no comando da Segurança Pública do Estado.

Muitas palavras poderiam definir Michel Temer, mas uma se encaixa melhor: perigoso.