Escalada militar dos EUA na América Latina não inclui Brasil como alvo, diz analista

Atualizado em 5 de janeiro de 2026 às 23:32
Fronteira entre Brasil e Venezuela. Foto: reprodução

A escalada militar dos Estados Unidos na América Latina, que teve seu ápice no sábado (3), quando a Venezuela foi atacada e viu seu presidente, Nicolás Maduro, ser sequestrado, acendeu alertas em governos da região. Ainda assim, o Brasil aparece em uma posição relativamente mais protegida diante da nova postura agressiva de Washington. A avaliação é do cientista político Ian Bremmer, fundador da consultoria de risco Eurasia Group, que analisou o cenário após as recentes ações do presidente Donald Trump contra países latino-americanos.

Segundo Bremmer, diferentemente de nações como Venezuela, Cuba, México ou Colômbia, o Brasil não é tratado pela Casa Branca como um problema de segurança nacional. Esse fator, afirma o analista, muda completamente o grau de pressão exercido pelos Estados Unidos.

Em resposta a uma pergunta da BBC News Brasil, durante coletiva após a divulgação do relatório anual de riscos globais da Eurasia, ele destacou que a relação entre Brasília e Washington tem sido pautada quase exclusivamente por interesses comerciais, e não por disputas estratégicas ou militares.

Esse aspecto ficou evidente, de acordo com Bremmer, no recente recuo do governo Trump em relação às tarifas impostas a produtos brasileiros. As sobretaxas haviam sido justificadas pela Casa Branca com argumentos políticos, como a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado e o avanço da regulação das redes sociais no Brasil.

O cientista político Ian Bremmer. Foto: reprodução

Mesmo sem qualquer concessão do governo brasileiro ou do Judiciário nesses temas, os Estados Unidos voltaram atrás. Para o analista, a decisão teve motivação econômica e eleitoral, já que as tarifas impactavam diretamente consumidores estadunidenses e ameaçavam a popularidade de Trump.

“Se o Brasil tivesse um problema de segurança nacional com os Estados Unidos, seria outra história, mas isso não é realmente um componente dessas conversas, que são esmagadoramente sobre comércio”, afirmou Bremmer.

Na avaliação dele, o país sente uma pressão “muito menor” da chamada doutrina Donroe, termo usado para definir a releitura feita por Trump da histórica doutrina Monroe.

Formulada em 1823 pelo então presidente James Monroe, a doutrina Monroe defendia a ideia de “América para os americanos” e rejeitava novas intervenções europeias no continente.

Com o tempo, passou a ser interpretada como a legitimação da influência dos Estados Unidos sobre a América Latina. A versão contemporânea, apelidada de doutrina Donroe, tem sido associada a uma política externa mais agressiva, com ameaças explícitas e uso da força para garantir interesses estratégicos.

Mesmo nesse contexto, Bremmer avalia que o Brasil conseguiu manter margem de manobra. Ele ressaltou que o país não cedeu nem na condenação de Bolsonaro — que cumpre pena de 27 anos de prisão — nem na agenda de regulação das plataformas digitais. Ainda assim, Trump recuou.

“Os brasileiros não recuaram nem nisso [condenação de Bolsonaro] nem na questão das redes sociais. E Trump recuou, porque ele quer um acordo, já que a economia está mais desafiadora”, disse.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.