A escravidão define o Brasil, mas não para sempre. Por Luiz Augusto de Paula Souza

 

O DCM apresenta “Escravidão” o primeiro episódio da websérie “O Povo Pode”  sobre a caravana de Lula no Nordeste, projeto que esta sendo financiado pelos leitores e conta com sua ajuda. O texto é de Luiz Augusto de Paula Souza (Tuto), professor titular da PUC-SP e apresentador da TVT.

O capítulo Escravidão da web-série do filme O povo pode põe em cena o processo de tomada de consciência e de luta pelo reconhecimento e pela estruturação do quilombo Brejão dos Negros em Sergipe.

Izaltina, líder quilombola, conta que a união pela luta é um basta à passividade em face da exploração e da humilhação que a escravidão impõe há séculos aos negros no Brasil, e ressalta que o movimento emancipatório contou com um governo federal que deu voz aos negros e que olhou para os pobres.

O basta à passividade, no entanto, não concluí a luta contra a escravidão, ao contrário, enfatiza sua necessidade. Aliás, atualmente, sinaliza a urgência em resistir a retrocessos nas conquistas alcançadas a partir da redemocratização, muito especialmente no período dos governos populares, entre 2003 e 2015. 

Sabemos que a ideia de raça e a escravidão não caíram do céu, não nasceram por geração espontânea, foram produzidas por relações de poder e por interesses específicos – políticos, sociais e, em especial, econômicos.

Aliás, o mesmo vale para a associação entre escravidão e raça, cuja vinculação foi desenvolvida pelos europeus durante o processo de colonização das Américas e da África para facilitar e incentivar a massiva exploração dos negros africanos e também de indígenas da América espanhola, principalmente.

A escravização pela raça, a escravização dos negros pelos brancos deriva da operação que define – e tenta legitimar a qualquer custo – vidas, agrupamentos sociais e culturas como válidos e superiores em relação a outros que, pretensamente, seriam inferiores e/ou descartáveis, por isso coisificados, passíveis de exploração na condição de, por exemplo, força de tração animal no período da escravidão formal e, atualmente, mão de obra barata, segregada e mantida sob jugo pela repressão da polícia dos brancos nas periferias urbanas ou de jagunços em propriedades rurais de senhores, igualmente, brancos.         

Antes da abolição formal da escravidão no Brasil, estima-se que 5,8 milhões de africanos de várias Nações foram tirados de suas terras de origem para chegarem em solo brasileiro como escravos. As relações de trabalho e de sociabilidade, os valores, os costumes… foram marcados, em enorme medida, pela profunda e cruel desigualdade que estruturou o país.

A escravidão nos definiu, ainda hoje define, diz o sociólogo Jessé Souza. Ele lembra que “Casa-grande e Senzala”, obra de Gilberto Freyre, nomeia a lógica e a triste herança histórica que modelou e modela a sociedade brasileira: como não ver a linha de continuidade que vai dos senhores de engenho aos “grandes” empresários e financistas de hoje? Como não reparar na exploração e na alienação das camadas populares pelas elites predadoras (nacionais e transnacionais)?
Como não perceber o papel de preposto dos poderosos reservado às camadas médias, aí incluídas verdadeiras castas de representantes das elites do atraso encasteladas nos poderes do Estado?

A escravidão, claro, está imbricada nas questões de classe. No Brasil, a desigualdade estrutural, forjada pela escravização dos negros, recebeu nuances e aprofundamentos ao longo do tempo, o que dá contornos singulares à luta de classes no país.

O lindo samba enredo da “Paraíso da Tuiutí” no Carnaval carioca de 2018 traduz algumas das características dos antagonismos de classe por aqui. Sob a atmosfera daquele samba, voltemos ao lugar de onde partimos, voltemos ao Brejão dos Negros, à sua luta emancipatória, necessária, urgente, recomeçada a cada manhã. Ela (e tantas outras lutas) lembra e dá mostras de que o povo pode libertar o cativeiro social.

O documentário “ O Povo Pode” será lançado em 2018, antes da eleição, e precisa ser finalizado o quanto antes, já que a legislação eleitoral pode impedir sua exibição durante a próxima campanha presidencial.

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