Espaço cultural de matriz africana sofre depredação na semana de combate à intolerância religiosa

Terreiro foi destruído após invasão | Foto: Reprodução/Fazenda Roseira

Publicado originalmente na Ponte:

Por Caê Vasconcelos

A Casa de Cultura Fazenda Roseira amanheceu depredada na manhã desta segunda-feira (18/1), justamente na semana do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O espaço é um importante ponto de cultura de matriz africana no Residencial Parque da Fazenda, em Campinas, interior de São Paulo. Há 12 anos no mesmo local, a Fazenda Roseira protege o sagrado, a dança, a música e estudos sobre o Jongo, dança brasileira de origem africana.

Elementos do patrimônio cultural material e imaterial de matriz africana, como livros, instrumentos musicais, objetos religiosos sagrados e outros bens que estruturam o espaço cultural, foram arrombados, desorganizados, destruídos e saqueados. Um financiamento coletivo foi montado para ajudar o espaço.

Entre os itens depredados estão quatro holofotes, sete câmeras, dois alarmes, uma pia, um fogão, materiais infantis, sete trincos de janelas, três fechaduras de porta, três portas, uma televisão, um cano de água e toda a cerca de proteção.

Em entrevista à Ponte, a produtora cultural Bianca Lúcia Martins Lopes, 23, gestora do espaço, conta que não é a primeira vez que o local sofre tentativas de arrombamento: de agosto até dezembro de 2020, cinco boletins de ocorrência foram registrados.

“Os registros eram de furto de fios, de câmeras, arrombamento de porta, mas nada que tivesse sido tão grandioso como dessa vez. Eles [a Polícia Civil] fazem o B.O. e fica por isso mesmo, que não tem o que fazer porque não sabemos quem são as pessoas. O máximo que eles falam que vão fazer é fazer uma ronda [da PM] no espaço, mas não fazem”.

“Hoje eles foram solícitos, desde o horário que chegamos tem dois carros de polícia, mas precisávamos que a PM passasse aqui com frequência. Os matos estão com três metros de altura, dá para alguém se esconder e aqui não tem segurança. Estamos vulneráveis”, completa Bianca.

A perícia da Polícia Civil esteve no local na tarde desta segunda-feira. “Eles olharam o espaço, pegaram alguns materiais que podem conter DNA, porque no espaço do terreiro tinham algumas bebidas, que foram jogadas, tinha até charuto no chão, então pegaram coisas que davam para fazer perícia. O laudo vai sair em até 10 dias”.

Há pelo menos quatro anos, as gestoras do espaço pedem ajuda para a Prefeitura de Campinas, de segurança patrimonial, corte de mato e proteção para continuar desenvolvendo as atividades para esse espaço.

“Aqui é um espaço público, é uma gestão compartilhada, nós temos a permissão de uso, mas é um espaço da Prefeitura. Todos os espaços da Prefeitura têm isso, por que aqui não tem? É racismo, é intolerância religiosa mesmo porque a maioria das pessoas que cá estão são religiosas de matrizes africana”, lamenta a produtora cultural.

Outro lado

A reportagem procurou a Prefeitura de Campinas e aguarda retorno.

Em nota, a SSP informou que “o policiamento no bairro Parque da Fazenda será reorientado por meio da análise dos índices criminais e denúncias de moradores visando a intensificar as ações de patrulhamento já existentes. As ações policiais na área resultaram na queda dos roubos (-29,8%) e furtos (-24%), de janeiro a novembro de 2020, em comparação ao mesmo período de 2019”.

“Todos os casos registrados são investigados pelo 2º DP de Campinas, responsável pela região. Equipes trabalham em busca de testemunhas e outros elementos que auxiliem na identificação e responsabilização dos autores”, completa a pasta.