Espremido por Aecio e Alckmin, Doria tem tudo para virar nanico em 2022. Por José Cássio

O gestor só criou inimigos em menos de quatro anos no PSDB (Imagem: reprodução)

A carreira meteórica de João Doria na vida pública pode terminar antes do que muitos imaginam.

O marqueteiro que virou prefeito de São Paulo sem que ninguém esperasse e usou o cargo como trampolim para o governo do Estado corre sério risco de não conseguir se viabilizar para 2022 dentro do PSDB.

No plano nacional, Doria é solapado por Aécio Neves. O deputado mineiro já tirou dele a liderança do partido na Câmara dos Deputados ao emplacar o aliado Celso Sabino (PA) no cargo.

Agora, numa segunda etapa, Aécio costura na Câmara e no Senado, com aval da velha guarda paulista, entre eles o ex-presidente Fernando Henrique, o lançamento do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, à presidência em 2022.

Querido por seus pares no Congresso, Aécio jurou a aliados de Minas que não iria sossegar enquanto não pusesse fim ao período de Doria entre os tucanos.

Réu por corrupção passiva e tentativa de obstrução judicial das investigações da Lava Jato, Aécio teve sua expulsão do PSDB pedida pelo gestor.

Sobreviveu, levou vantagem na indicação da Executiva do diretório nacional, venceu a contenda na escolha do líder e agora prepara o golpe de misericórdia.

Como se isso não bastasse, Doria tem de conviver com outra pedreira em São Paulo: seu ex-padrinho Geraldo Alckmin está disposto a lutar pela candidatura tucana ao governo do Estado em 2022.

A justificativa: o próprio Doria diz que é contra a reeleição.

Ok, você pode dizer que o que o gestor escreve não se assina embaixo.

Verdade. O problema é que Geraldo quer, aliás como já fez em 2006, quando perdeu a eleição para prefeito de São Paulo, encarar a disputa interna pela legenda.

Neste caso, é quase barbada que o gestor vai acabar comendo poeira.

“Doria tomou o PSDB de assalto e fez do partido um balcão de negócios”, diz um militante que pede para não ser identificado.

“O primeiro chega pra lá ele levou no diretório nacional, na escolha da Executiva e do próprio Bruno Araújo, que ele imaginou que fosse seu aliado mas não era bem assim. Perdeu a disputa pela liderança na Câmara e agora está sentindo dificuldade aqui no Estado”.

Na avaliação de tucanos, Doria subestimou o partido.

No início, ainda desconhecido, até tentou certa aproximação com a base. Bastou chegar ao poder para mostrar a sua verdadeira face.

Primeiro traiu Alckmin, tentando tirar do então governador a legenda para a disputa da presidência em 2018. Depois, Bruno Covas, seu vice na prefeitura.

Em uma viagem à França, Bruno foi demitido junto com seu adjunto, Fábio Lepique, da secretaria de Prefeituras Regionais.

O agora prefeito, que trata um câncer no estômago, respondeu ignorando a campanha de Doria para governador em 2018 – na capital, o gestor levou uma surra de Márcio França (PSB) no segundo turno e por pouco não perdeu a eleição.

João Doria surgiu na vida pública negando a política, mas se aproveitou da sólida base do PSDB na capital para chegar à prefeitura.

Usou o cargo como trampolim para alcançar o governo do Estado e agora faz o mesmo no afã de virar presidente.

Além do marketing, que muitos consideram o fino do brega, apoia-se em figuras como ele, sem tradição na vida partidária: Alexandre Frota é o melhor exemplo.

Divertido na redes sociais e esperto no plenário da Câmara, Frota não existe no PSDB. Não participa de reuniões e não interage com colegas. É considerado persona non grata pela militância.

Na outra ponta está Joice Hasselmann, que se indispôs com Bolsonaro e tenta viabilizar sua candidatura a prefeita, ou vice dependendo das circunstâncias, pelo PSL ou por outro partido.

Doria não aprendeu com os erros.

Ao deixar a prefeitura para se candidatar ao governo do Estado, venceu a disputa mas encerrou a campanha vagando sozinho, implorando voto de populares no Largo Treze, no bairro de Santo Amaro, zona Sul da capital.

Ao lado dele meia dúzia de assessores e ninguém mais.

Nenhum deputado, nenhum figurão importante.

Só não saiu derrotado porque seu vice, Rodrigo Garcia, que é do interior do Estado, garantiu uma surpreendente votação nas cidades de pequeno e médio porte embalado pelo furação conservador bolsonarista.

A menos de três anos da eleição para a presidência, o gestor se vê diante de seu grande desafio: superar a pendenga com Aécio e garantir a legenda ou mudar de partido e encarar a disputa na condição de nanico.

Da última vez que ficou só o que salvou foi o acaso, já que ele próprio foi dormir de sábado para domingo achando que havia sido derrotado para Márcio França.
O gestor pode ser bom de lobby, mas de política partidária entende quase nada. A prova é seu recorrente isolamento.

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