Esquerda precisa enfrentar os erros que permitiram a ascensão do fascismo: entrevista com Flávio Dino

Governador do Maranhão, Flávio Dino Foto: Governo do Maranhão

PUBLICADO NO OUTRAS PALAVRAS

POR ANTONIO MARTINS

Num país em que a esquerda abandonou o debate de projetos, para se enredar nas tramas do eleitoralismo, quem ousa outro caminho corre o risco de ser mal interpretado. Há duas semanas, o governador do Maranhão, Flávio Dino, propôs uma frente democrática, para enfrentar o autoritarismo e os retrocessos e reabrir espaço para a crítica e a transformação social. O que teria em mente? – perguntou-se. Uma candidatura em aliança com a direita “civilizada”, que combate Bolsonaro mas ajuda a impor o neoliberalismo? Oferecer-se ao PT como plano B, diante do possível impedimento de Lula?

Ao entrevistar Flávio Dino, em 31 de julho, fiz-lhe, em tom maroto, esta provocação. Respondeu-a com tranquilidade. Não procurou afastar a eventual postulação. Mas sustentou que seu objetivo é reacender o debate político esmaecido – porém indispensável – sobre como resgatar a sociedade brasileira do caminho infeliz por que enveredou.

Flávio Dino tem duas opiniões centrais, neste debate. Ele propõe – e o faz de forma clara – reunir todas as forças necessárias para enfrentar a ameaça de fascismo. Cabem neste desenho os esforços do ministro Alexandre de Moraes para desbaratar as milícias, digitais ou armadas. As seguidas ações da OAB (que, em 2016, apoiou o impeachment de Dilma) contra os ataque de Bolsonaro à democracia. Ou mesmo os gestos pontuais de resistência ensaiados por governadores que nada têm de esquerda.

Não significa acreditar – frisa Dino, com uma metáfora que lembra a dos “companheiros de viagem” – que as diferenças de projetos acabaram; que estes aliados, indispensáveis para preservar as liberdades, possam somar forças também na busca de novos rumos para o país. Isso cabe a outros atores. Mas quais?

Quando surge este tema, o das saídas de longo prazo, o governador do Maranhão expõe uma faceta menos conhecida de suas ideias. Ele é um crítico dos caminhos em que se perdeu a esquerda institucional brasileira. Diferente de Ciro Gomes, por exemplo, seu foco não está apenas no lulismo. Dino enxerga fenômenos mais profundos, como a burocratização, o personalismo, o afastamento dos dramas e lutas populares, a desatualização programática, o apego ao passado, a perda de capacidade de refletir e formular. Está há muito em busca de saídas.

Jamais embarcou, por exemplo, na crença de que seria possível governar à esquerda, de modo duradouro, sem sacudir uma estrutura política oligárquica e submissa ao poder econômico. Eleito deputado federal, integrante da base de apoio ao segundo mandato de Lula (2006-10), propôs em 2007 emenda constitucional em favor de uma Constituinte, encarregada de reformar os sistemas político e tributário. A proposição recebeu, relata, “a pior resposta: a do silêncio”. Os governos de esquerda, embora protagonizassem avanços civilizatórios reais, jamais ousaram promover mobilização popular.

Flávio tem clara noção desta ausência. Sua visão sobre o processo que levou ao golpe de 2016 é refinada. Ele enxerga, é claro, o movimento geopolítico dos EUA, que não se conformaram com a emergência de um poder rival na América do Sul – menos ainda após a descoberta das jazidas gigantes de petróleo do Pré-Sal. Mas lembra que a ação desestabilizadora de Washington se deu por encontrar “terreno fértil”. O descolamento entre a esquerda e sua base gerou, para o governador, “um gigante com pés de barro”. Em 2013, diz ele, este processo favoreceu a captura de grandes protestos – em seu início, democráticos e favoráveis aos serviços públicos – pela direita. Dois anos depois, no início do segundo mandato de Dilma, levou a um ajuste fiscal que “desorientou a base social” e tornou o gigante “facilmente derrubável”.

Será possível, à esquerda, enfrentar tantos problemas; recuperar-se a ponto de evitar uma nova vitória eleitoral do fascismo; recredenciar-se para propor a transformação do país? Aqui Flávio Dino pode ser visto como generoso ou condescendente, a depender do interlocutor. Formado politicamente no cristianismo de esquerda, ele recorre à frase bíblica: “atire a primeira pedra quem nunca errou”. Aposta que os enganos de catorze anos de governo foram pontuais e poderão ser corrigidos. Imagina que as vaidades que hoje opõem Lula a Ciro terminarão por ser superadas. Orgulha-se de manter estas esperanças, porque prefere a ingenuidade ao cinismo.

Lança acenos a uma renovação mais profunda. À atualização programática – que leve em conta as transformações no capitalismo, nas formas de acumulação de riquezas, ao surgimento do precariado. A projetos como a Renda Básica, a Economia Solidária, o Green New Deal. No plano das realizações concretas, o Maranhão impressiona. Dois dias depois da entrevista, o estado era considerado, num estudo do Centro de Liderança Pública que levou em conta um conjunto de variáveis estatísticas, a unidade da federação mais bem-sucedida no combate à covid-19. É o penúltimo estado, em renda per capita. Mas entre 1º e 31 de julho, um conjunto de políticas reduziu exatamente pela metade o número de casos da doença. Nesse mesmo período, o Brasil tornou-se líder mundial no funesto campeonato de óbitos provocados por coronavírus.

No início de agosto, pesquisas de opinião, ainda muito imprecisas dada a distância da disputa, atribuíam a Flávio Dino 3% das intenções de voto, numa eventual disputa pela presidência em 2022. Chamava atenção o fato de ele estar apenas um ponto percentual abaixo de João Dória, conhecido há muito, à frente de um Estado incomparavelmente mais conhecido e de um partido mainstream.

Os dois combates de Flávio Dino pareciam começar a produzir resultados.

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