Esquerda tem de reconectar e não demarcar, defende Manuela D’Ávila. Por Vitor Nuzzi

Originalmente publico em REDE BRASIL ATUAL

Por Vitor Nuzzi

“Nossa turma ainda não entendeu que internet não é só comunicação, é sobre uma nova forma de organização na sociedade”, diz a certa altura a ex-deputada gaúcha Manuela D’Ávila (PCdoB). Candidata a prefeita de Porto Alegre – e em primeiro lugar, segundo pesquisa divulgada ontem –, ela repetirá algumas vezes a expressão “nossa turma”. Para ao mesmo tempo se referir ao campo progressista e mostrar preocupação com a necessidade de a esquerda se comunicar melhor.

Em outras palavras, fazer conexão entre a pauta considerada importante e as necessidades da população. Dá o exemplo da emenda do teto de gastos. “Na vida real, pra dona Maria, pro seu José, a Emenda Constitucional 95 é um palavrão. O que existe é o posto de saúde fechado na comunidade”, compara Manuela, entrevistada na noite desta quinta-feira (24) no quadro #BarãoEntrevista, no canal do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé no YouTube.

Respeito às religiões

A candidata, que refaz na capital gaúcha a dobradinha com o PT (o ex-ministro e ex-vice-governador Miguel Rossetto é seu vice), insiste em ampliar o diálogo com todos os setores. Particularmente com os evangélicos, tema de uma das primeiras perguntas, feita pelo coordenador do Barão, Miro Borges.

“Eu não sou da esquerda que gosta de demarcar. Precisamos nos reconectar com esses setores. E de forma muito respeitosa com o conjunto das religiões”, afirma Manuela D’Ávila, que mais adiante irá reforçar a necessidade da aproximação. “Nós precisamos nos fazer alternativa real. A gente tem uma turma que gosta de ficar nesse lugar demarcatório.”

Reconstrução nacional

O primeiro a falar foi o ator Sérgio Mamberti. Citou Porto Alegre como “espaço histórico” de participação social. Apontou a comunicação como “questão absolutamente estratégica”. Além disso, para ele, este é momento “para reconquistar espaço de cidadania e pensar numa reconstrução nacional”.

O cineasta Silvio Tendler também mencionou a questão religiosa e relatou conversas com o bispo Mauro Morelli e com um “rabino marxista” nos Estados Unidos. Este último criticava a esquerda por “abandonar o mundo espiritual, querer convencer as pessoas pela racionalidade”.

“Às vezes acho que a gente passou a analisar tudo a partir da objetividade”, analisa Manuela D’Ávila, que pouco antes faria uma reflexão sobre certa dificuldade da esquerda. “A nossa disposição de disputar consciência é muita baixa. A gente está com muita vontade de ter razão.” Ela insiste: a questão da eleição municipal não é sobre cidades “que resistirão” ao conservadorismo, mas sobre alternativas de fato. “O que a nossa turma precisa compreender é que ideologia tem que ter a ver com conjuntura política. Etem a ver com a realidade do povo.”

Manuela também comentou recente votação na Câmara sobre perdão de dívidas tributárias das igrejas. Considerou errada a posição de seu partido, mas observou que vários dos comentários eram pouco relacionados à votação em si e carregavam muito preconceito. Mais ou menos como Jair Bolsonaro trata os comunistas, por exemplo. E comentou que ela própria foi questionada por “gente de esquerda” sobre os livros que estava lendo e fazia questão de divulgar. Lamentou que “nossa turma” por vezes seja pautada pela extrema direita.

Tecnologia do bem

Outro tema foi o das fake news, que a levou, inclusive, a criar o instituto E se fosse você?. Lembrou do youtuber Felipe Neto, que em um dia derrubou 1.460 vídeos com ataques. “Numa noite (na eleição de 2018), nós derrubamos 147 mil vídeos. O Jean (o ex-deputado Jean Wyllys, do Psol), num semestre, bloqueou 400 mil perfis do seu Facebook. É disso que a gente está falando.”

Mais uma vez, a conversa é sobre comunicação. E modernização. “Acredito muito na construção de uma cidadania digital”, diz Manuela. “Não se vence robô só educando as pessoas. Precisamos de tecnologia do bem. As plataformas têm que se desenvolver de forma mais veloz pra isso.”

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