“Esse modelo econômico excludente não é a proposta que Jesus deixou”, afirma padre

Fábio é coordenador para a Comissão de Ecumenismo e Diálogo Inter Religioso e da Comissão de Justiça e Paz da Igreja Católica / Paróquia N. Sra. do Rosário

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO

POR FÁTIMA PEREIRA E VANESSA GONZAGA

Independentemente da religião, a época do Natal costuma reunir as famílias brasileiras para celebrações de comunhão e fraternidade.

Para falar sobre a importância da data e o legado de Jesus Cristo, o Brasil de Fato Pernambuco conversou com o padre Fábio dos Santos, coordenador para a Comissão de Ecumenismo e Diálogo Inter Religioso e da Comissão de Justiça e Paz da Igreja Católica.

A simbologia do Natal, a trajetória de Jesus e o projeto de vida contido na Bíblia foram temas da conversa.

Confira os melhores momentos:

Brasil de Fato: O que o Natal representa? 

Fábio dos Santos: Para os cristãos, é o mistério de um Deus que se fez humano – e que se fez humano na periferia do mundo, na Palestina. Deus podia se fazer homem lá no centro, no império, poderia ter nascido na nobreza. Mas ele nos dá um recado quando encarna, porque vai ser filho de um operário, de um carpinteiro, e quando cresce ele se torna um também.

É esse mistério afetuoso, amoroso e solidário de um Deus que se torna companheiro, se torna um de nós. Ele nos traz uma proposta da encarnação que se completa no mistério da morte e da ressurreição, na Páscoa. O Natal e a Páscoa se encontram, de alguma forma.

Quem era esse Jesus que vivia no meio do povo?

Não dá para separar, do ponto de vista do crente, o Jesus histórico do Jesus Cristo da fé, como as outras expressões religiosas no mundo. O tempo todo, esse Jesus histórico é o Cristo da fé, que morre e ressuscita para que nós, como filhos de Deus, nos tornemos irmãos e irmãs, homens e mulheres novos, construtores de novas estruturas na sociedade, na política, na economia, na cultura, na questão ambiental.

Essa dimensão da fé é muito importante, inclusive na perspectiva do Cristo libertador, que nos traz essa visão da libertação dos povos, da justiça social. Para usar um termo mais atual, o Papa Francisco fala de “ecologia integral”, onde tudo está interligado.

Jesus não passou a vida na sacristia. Estava lá construindo e mostrando a construção de um mundo mais justo e mais fraterno. E essa proposta de Jesus, quando levada a sério, só pode transformar o mundo para melhor.

Esse modelo econômico excludente que está aí não é a proposta que Jesus deixou.

Como você acha que viveria Jesus na sociedade de hoje, orientada pelo consumo e pela exploração? 

Nos evangelhos, a gente encontra que Jesus comia e bebia com os pecadores, e escandalizava por causa disso, mas ele também comia e bebia com os fariseus. Eu acho importante afirmar isso, porque é tempo de conviver com a diversidade, com a pluralidade. Essa proposta de Jesus que sabia dialogar com todos é para nós um pista e, no período do Natal, isso ganha uma força, pelo simbólico: é um convite a fraternidade.

Se antes a palavra justiça parecia muito subversiva, por incrível que pareça, amar me parece ser revolucionário.

De que forma é possível aplicar os ensinamentos de Cristo no cotidiano?

Você vai encontrar em todas as religiões o amor, justiça, bondade, paz, solidariedade, luta. A Igreja Católica tem uma doutrina social há praticamente 100 anos com essa visão mais elaborada. Isso sem falar do compromisso que a igreja tem com essa dimensão humana, social, ecológica.

Na América Latina, nós tivemos a Teologia da Libertação, as Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Juventude Rural e tantas outras iniciativas da igreja que estão comprometidas com essa missão evangélica da opção pelos pobres.

Mesmo não fazendo parte da política ou tomando partido de quem o fizesse, você acha que Jesus Cristo pode ser considerado uma figura política?

Em termos partidários, não. Jesus não é uma ideologia. Para quem crê nele, ele é Deus que se fez homem, que criou uma nova história na humanidade e, evidentemente, uma postura de diálogo e ecumenismo com as expressões de fé.

O cristianismo que gera desigualdade, pobreza, miséria e desemprego não é o cristianismo autêntico. O cristianismo autêntico é político, não partidário e ideológico: ele promove um mundo melhor. A justiça social é um compromisso de todos e é um direito constitucional.

Jesus era conhecido por andar com os marginalizados daquela época. Quem são e onde estão os marginalizados hoje?

Os marginalizados continuam sendo os pobres e, à medida que fomos nos tornando comunidade, vemos que os marginalizados também são aqueles que sofrem por sua orientação sexual, sua religião. O cristianismo tem essa sacada, que é o mandamento novo do amor. E como eu trabalho isso o tempo todo na comissão, eu sinto sobre esse tema – não é só porque leio e estudo isso.

Como Jesus fez com os marginais do seu tempo um gesto de acolhida e inclusão, ele também nos traria essa mensagem hoje.

Edição: Marcos Barbosa

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