A cidade de 2 mil habitantes que entrou em um esquema de R$ 50 bi das bets

O Ministério Público do Rio Grande do Norte afirma que um órgão criado pela prefeitura de Bodó, cidade a 135 km de Natal, deu aparência de legalidade a um esquema de exploração irregular de apostas de quota fixa e jogos de azar na internet. As empresas investigadas entraram na mira da Operação Conto da Sorte, deflagrada nesta quinta-feira pelos Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco e pela Receita Federal.
A investigação aponta que a LotSeridó, autarquia vinculada à prefeitura do município de 2.360 habitantes, funcionava como âncora para plataformas de bets de várias regiões do país. O promotor Augusto Lima, do Gaeco, disse em coletiva no Recife que a estrutura existia apenas no papel e que “nada acontecia em Bodó”. Segundo ele, “a prefeitura apenas entrou com a questão formal ou edital de credenciamento. Bets do Brasil todo, de forma irregular, foram credenciadas naquela prefeitura e saíram explorando apostas de forma irregular, de forma irresponsável e sem autorização dos órgãos responsáveis”.
O órgão deixou de funcionar em outubro de 2025, mas as empresas continuaram atuando sem autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda. A operação cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em Pernambuco, Ceará e São Paulo. Ao menos 37 bets ilegais teriam movimentado cerca de R$ 50 bilhões, segundo os investigadores.
O Ministério Público aponta movimentação financeira incompatível com os rendimentos declarados, indícios de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro por meio da aquisição de imóveis e falta de repasse sobre a receita líquida de apostas, prevista na Lei nº 13.756/2023. A Prefeitura de Bodó foi procurada pela reportagem de O Globo, mas não se manifestou até a publicação.
