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Aluno da FGV é acusado de racismo após mensagem no WhatsApp

VEJASP:

Um aluno da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, registrou boletim de ocorrência por injúria racial nesta quinta (8). Um estudante do 4º semestre do curso de Administração de Empresas fez uma foto do estudante e compartilhou o clique em um grupo do WhatsApp com a frase: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!“.

Em um grupo da FGV no Facebook, o aluno vítima de racismo fez um desabafo: “Tão perto de mim… por que não foi falar na minha cara? Mas você optou pela atitude covarde de tirar uma foto minha e jogar no grupo dos amiguinhos. Se seu intuito foi fazer uma piada, definitivamente você não tem esse dom. Acha que aqui não é lugar de preto? Saiba que muito antes de você pensar em prestar a FGV eu já caminhava por esses corredores. Se você me conhecesse, não teria se atrevido. O que você fez além de imoral é crime! As providências legais já foram tomadas e você pagará pelos seus atos!“.

“Não descansarei até você ser expulso dessa faculdades. Pessoas como você não devem e nem podem ter um diploma da Fundação Getúlio Vargas“, continuou ele. O boletim de ocorrência foi registrado no 4º Distrito Policial da Consolação, na região central de São Paulo, nesta quinta (8).

Procurada por VEJA SÃO PAULO, a assessoria da FGV enviou um comunicado: “O comentário ofensivo foi feito em grupo privado do qual o ofensor fazia parte, sem qualquer participação, ainda que indireta, da FGV. Ante a possível conotação racista da ofensa, firme em sua postura de repúdio a toda forma de discriminação e preconceito, a FGV, tão logo tomou conhecimento dos fatos, tal qual prevê seu Código de Ética e Disciplina, de imediato aplicou severa punição ao ofensor, que foi suspenso de suas atividades curriculares por três meses, estando impedido de frequentar a escola, sem ressalva da adoção de medidas complementares, a partir da apuração dos fatos pelas autoridades competentes”.

O coletivo 20 de Novembro FGV também publicou uma nota de repúdio no Facebook e disse que “condutas racistas não passarão em branco pelos olhos e bocas de quem sabe o que é sofrer preconceito na pele”. Confira:

[ NOTA DE REPÚDIO AO RACISMO VELADO NA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS]

08 de Março de 2018
Coletivo Negro 20 de Novembro

Nós, membros e membras do coletivo negro 20 de novembro, gostaríamos de expressar nosso repúdio contra o fato ocorrido em detrimento de mais um aluno negro da Fundação Getúlio Vargas. Como membros de um grupo que visa a articulação de uma minoria ascendente dentro do ambiente gvniano gostaríamos de expor que condutas RACISTAS não passarão em branco pelos olhos e bocas de quem sabe o que é sofrer preconceito na pele.

A denúncia, feita na terça-feira (06/03), chegou ao conhecimento de todos nessa quinta-feira (08/03) via redes sociais. E os fatos, deixam claro (muito claro) o teor extremamente preconceituoso do discurso proferido.

Como coletivo, como negros e como pessoas tentamos todos os dias afirmar nosso lugar dentro de uma fundação majoritariamente branca. Até porque não deveríamos nos sentir segregados, separados ou humilhados, como bem diz a Constituição Federal em seu artigo 5: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…”

Vivemos num país livre. Infelizmente essa liberdade muitas vezes é tão somente formal. As desigualdades de renda, classe, gênero e de cor nas terras de Machado de Assis, Dandara, Luís Gama, Carolina de Jesus, Joaquim Barbosa e Thais Araújo, nos dizem que indivíduos ainda são cerceados de ser quem realmente são. Negros e negras são minoria nas prestigiadas instituições de ensino superior. Homens negros são a maior parte da população carcerária do país. Mulheres negras sofrem duas vezes mais com o feminicídio do que mulheres brancas. Crianças negras são a grande maioria do corpo discente do péssimo ensino público. LGBTSs negros fazem parte de uma das populações mais vulneráveis para o desenvolvimento de doenças mentais. Sendo assim, o coletivo 20 de novembro se levanta e diz: Basta!

Basta aos comentários nojentos. Basta aos olhares de desprezo e estranheza. Basta aos termos pejorativos. Basta a hipersexualização da mulher negra. Basta a exclusão e segregação de LGBTs de cor. Basta aos pensamentos de ódio. Basta ao racismo velado presente nos discursos dos tão renomados docentes da nossa Fundação. Basta de confundir alunos e alunas negras com funcionários e funcionárias da escola. Basta à invisibilidade das faxineiras, funcionários, bedéis, terceirizados negros. Basta ao número repugnante de discentes na EAESP, EDESP E EESP. Pior ainda, basta ao número repugnante de docentes em toda a FGV-SP. Basta!

Dessa forma, olhamos para nós mesmos e nossos similares e dizemos que esse lugar também é nosso. E são atitudes como essas que tentam tirar os negros e negras da Getúlio Vargas.

Essa nota, além de uma pequena demonstração de que tais atos são inaceitáveis em uma sociedade democrática, foi escrita para dizer que iremos continuar de pé. Vamos continuar incomodando. Vamos continuar no fumódromo, no Diretório Acadêmico e seja lá onde quisermos estar. Soltos, livres e, se alguém perguntar, sem donos.