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Análise: fake news sobre Marielle mostram como o Estado lida com favela e periferia

Texto de Pedro Abramovay e Manoela Miklos na Folha.

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No último domingo (18), a manchete do UOL era: “Marielle não foi casada com Marcinho VP nem eleita pelo Comando Vermelho”. Uma não notícia como essa não deveria ser manchete do principal portal de notícia do país. 

Foi, no entanto, fundamental veiculá-la com destaque, dada a avalanche de informação falsa que passou a circular em contraposição à enorme comoção nacional e internacional diante do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco. 

Mulher, negra, bissexual, da favela da Maré, Marielle tinha vencido a improbabilidade de alguém com qualquer dessas características ocupar espaços no poder.

No entanto, a improbabilidade que Marielle desafiou em vida lhe foi simbolicamente restaurada após sua morte no último dia 14. Transformou-se a mulher negra da favela, que ocupou legitimamente o poder, num personagem que a estrutura reinante de machismo, racismo e privilégios pudesse suportar: a vereadora era uma aliada do tráfico. Afinal, no Rio de Janeiro, quem mora em favela só pode ser ligado ao tráfico.

As notícias falsas sobre Marielle são mais um exemplo de uma história comum aos moradores de favelas e de todas as periferias brasileiras. É o fenômeno mais grave de “fake news” do Brasil contemporâneo, porque ilustra a relação cruel do Estado com a parte mais vulnerável de sua população.

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Marielle Franco. Foto: Wikimedia Commons