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André Singer: Semipresidencialismo de Temer pode ser a saída dos “donos do poder”

O professor e cientista político André Singer pontua que o grupo de Michel Temer deu o golpe em Dilma Rousseff através da brecha conservadora. Uma vez no poder, eles farão o possível para permanecer no controle, inclusive empurrar uma proposta de semipresidencialismo. O texto é da coluna de Singer na Folha de S.Paulo.

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Por que Temer, em tese sem pretensões para 2018, mandaria Marun comprar briga com chefes regionais em nome de uma reforma impopular no último ano de mandato?

Quem teve a curiosidade de ler o artigo do deputado Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) publicado pela Folha na quinta (28) terá encontrado uma descrição tão intrigante quanto o movimento de Marun. Figura histórica do antigo e novo MDB, Vasconcelos acusa o senador Romero Jucá (MDB-RR), atual presidente da agremiação, de agir “em Pernambuco para tomar de golpe a legenda”.

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O que ocorre na sigla da acomodação e do jeitinho? Por que o velho partido-ônibus agora obriga passageiros como Kátia Abreu (ex-PMDB-TO) a descerem a toque de caixa (a senadora foi expulsa no mês passado)?

Arrisco uma explicação. O deslocamento liderado por Temer entre 2015 e 2016, quando o partido rompeu a aliança com o lulismo para assumir a vanguarda da derrubada de Dilma, não era epidérmico, como às vezes pareceu. Os políticos hoje no Planalto enxergaram uma brecha cujo preenchimento é bem mais do que ocasional.

Trata-se do espaço criado pelo conservadorismo que avançou na sociedade brasileira. O acesso ao Executivo, via impeachment, deu ao grupo em torno de Michel, como gostam de dizer os correligionários, a possibilidade de realizar um programa que move importantes forças nacionais. Contenção estrutural do gasto público, desmonte da CLT e reforma da Previdência constituem medidas que alteram características centrais da Constituição de 1988, como é o desejo de parcela expressiva da classe dominante.

Os emedebistas têm consciência do papel que estão jogando e não pretendem entregar os louros conquistados de mão beijada para algum tucano da vida. Só não sabem, ainda, como combinar o jogo com o eleitorado, que tende a derrotá-los em eleições presidenciais. Por isso, o projeto de semipresidencialismo, que circulou na semana passada, deve ser acompanhado com todo cuidado. Ele pode ser a (péssima) saída para o problema em que estão metidos os atuais donos do poder. 

André Singer. Foto: Marcos Santos/USP Imagens