Associação familiar que recebe dinheiro do MBL acaba entrando na mira da Justiça por isso

De Felipe Betim no El País Brasil.
Criado em 2014 com a bandeira do combate intransigente à corrupção, o Movimento Brasil Livre (MBL) está na mira da Justiça por suspeitas de lavagem de dinheiro. O Ministério Público de São Paulo joga os holofotes sobre o Movimento Renovação Liberal, entidade para onde são destinados os recursos do MBL, conforme o EL PAÍS já havia antecipado em reportagem de 2017, que abordou a falta de transparência das contas do grupo. Trata-se de uma “associação privada” —como consta no site da Receita Federal— registrada em nome de Renan Santos, uma das principais lideranças nacionais do MBL, além de seus irmãos Alexandre e Stephanie e uma quarta pessoa. A Promotoria aponta para uma “confusão jurídica empresarial” com o Renovação Liberal e afirma que o grupo recebe “doações de forma suspeita”, cujas cifras são “ocultas”. Dois empresários supostamente vinculados ao grupo foram presos temporariamente nesta sexta-feira, em São Paulo, no âmbito da Operação Juno Moneta, realizada pela Polícia Civil e a Receita Federal.
A investigação aponta para o recebimento de doações “através da plataforma Google Pagamentos — que desconta 30% do valor, ao invés de doações diretas na conta do MBL/MRL”. Seria uma forma de ocultar a origem do dinheiro, ainda segundo os investigadores. “Chega a ser risível o apontamento de ocultação por doações na plataforma Google Pagamentos, haja vista que todas as doações recebidas na plataforma são públicas, oriundas do YouTube e vulgarmente conhecidas como ‘super chats’, significando quantias irrisórias, feitas por uma vasta gama de indivíduos de forma espontânea”, explicou em nota o MBL, que ficou conhecido por levar às ruas milhares de pessoas a favor do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff (PT). “Sob o aspecto lógico, seria impossível realizar qualquer espécie de ocultação e simulação fiscal por uma plataforma pública e com quantias pífias”, acrescentou.
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Sobre o MBL, o Ministério Público apontou ainda para a “constituição e utilização de diversas empresas em incontáveis outras irregularidades, especialmente fiscais”. Também destacou que a “família Ferreira dos Santos, criadora do MBL, adquiriu/criou duas dezenas de empresas — que hoje se encontram todas inoperantes e, somente em relação ao Fisco Federal, devem tributos, já inscritos em dívida ativa da União, cujos montantes atingem cerca de 400 milhões de reais”. De acordo com o movimento, “as atividades empresariais e familiares dos fundadores do MBL são anteriores ao próprio movimento e não possuem qualquer vinculação, haja vista que não possuem qualquer conexão ou convergência de finalidade”.
A reportagem do EL PAÍS publicada em 2017 mostrou que a família Santos respondia a centenas de processos na Justiça relativos a negócios que tiveram antes da criação do Renovação Liberal. A maioria era relativa à falta de pagamento de dívidas líquidas e certas, débitos fiscais, fraudes em execuções processuais e reclamações trabalhistas. Juntos, acumulavam naquele ano uma cobrança da ordem de 20 milhões de reais, valor que crescia a cada dia em virtude de juros, multas e cobranças de pagamentos atrasados.
A reportagem também contou que tanto o MBL quanto a associação Renovação Liberal nunca haviam apresentado ao público uma prestação de contas. “O MBL é o movimento político mais perseguido do Brasil. E, portanto, como entidade privada, não tornamos público o balanço financeiro, em respeito à privacidade e integridade de nossos colaboradores, membros e doadores”, justificou o grupo na época. De acordo com a reportagem, doações de novos filiados ao MBL e a venda de artigos vinculados à marca, como bonecos pixulecos, canecas e camisetas, tem os recursos direcionados diretamente à entidade de Renan e seus irmãos, como constatou este jornal ao fazer compras na página do movimento.
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