Baronesa do trisal, mortes e mistério: como utopia de ‘paraíso tropical’ virou ‘inferno na Terra’

A ilha de Floreana, no arquipélago de Galápagos, no Equador, tornou-se cenário de conflitos, mortes e desaparecimentos nos anos 1930 após a tentativa de criação de uma sociedade utópica liderada por um médico alemão. Friedrich Ritter e sua companheira, Dore Strauch, deixaram a Alemanha em 1929 com o objetivo de romper com a civilização europeia e viver de acordo com ideias inspiradas no filósofo Friedrich Nietzsche. Segundo a escritora Abbott Kahler, Ritter buscava encarnar o conceito do “Übermensch”, o “super-homem” capaz de criar “um sistema superior de valores, livre das convenções sociais”.
A experiência começou de forma isolada, em uma ilha então desabitada, escolhida por ter uma fonte de água doce. “Floreana pareceu a escolha perfeita”, afirmou Kahler, ao explicar que Ritter acreditava ser possível “cultivar uma horta e viver da terra”. A história do casal ganhou repercussão internacional, e eles passaram a ser chamados de “Adão e Eva” pela imprensa. A notoriedade, porém, atraiu novos moradores e abriu caminho para disputas de poder que comprometeram o projeto original.
Em 1932, a chegada de outro casal alemão, Heinz e Margret Wittmer, agravou as tensões. “Dore considerava Margret uma tola por escolher ter um bebê em uma ilha remota, e Margret achava Dore pretensiosa por citar Nietzsche em uma ilha remota”, relatou Kahler. O ambiente tornou-se ainda mais hostil com a chegada da autoproclamada baronesa austríaca Eloise von Wagner Bosquet, acompanhada de dois amantes. Ela anunciava planos grandiosos e dizia querer transformar Floreana “na próxima Miami”, o que aprofundou rivalidades e conflitos entre os moradores.
A sequência de mistérios começou em 1934, com o desaparecimento da baronesa e de um de seus amantes. “Até hoje não se sabe o que aconteceu”, afirmou Kahler, destacando que os relatos disponíveis são contraditórios. Meses depois, o segundo amante foi encontrado morto em outra ilha, e Friedrich Ritter morreu após uma súbita intoxicação alimentar. Dore Strauch voltou à Alemanha e publicou o livro “Satanás Veio ao Éden”.
