Barricadas contra o governo dividem a oposição na Venezuela
Eram 5h da manhã quando Pedro Medina voltava da balada com amigos para casa e se deparou com uma barricada na via de acesso ao bairro de classe média alta de El Cafetal, no leste de Caracas.
Opositor ao governo de Nicolás Maduro, Medina tentou convencer outros três jovens opositores para que o deixassem passar e chegar logo em casa. Encapuzados, atrás de uma barricada feita de pedras e lixo, eles recusaram.
“Cara, você acha que queremos estar aqui numa hora dessas? Mas essas são as ordens”, teria dito um dos jovens a Medina.
“Entendi então que eles são pagos para fazer isso. Comecei a questionar quem os mandava fazer aquilo, que isso limitava a liberdade dos cidadãos”, relatou Medina à BBC Brasil.
Uma pesquisa do instituto Datanálisis mostrou que sete entre dez opositores ao governo rejeitam as barricadas. No total, 87% dos venezuelanos (chavistas e setores independentes incluídos) discordam desse tipo de manifestação violenta.
Por outro lado, manifestações pacíficas contra o governo são legitimadas por 72% da população. “Os números mostram que não há uma rejeição aos protestos, e sim à violência, às barricadas”, afirmou à BBC Brasil o diretor do Datanalisis, Luis Vicente León.
Concentradas em áreas de classe média e média alta, as barricadas transformaram os confortáveis, seguros e limpos bairros opositores em um território arrasado e sujo, com a infraestrutura danificada. O protesto afetou em cheio o cotidiano dos moradores, a maioria opositores ao governo. Transito interrompido, congestionamentos e aulas suspensas se tornaram constantes.
Medina contou que naquela madrugada teve o carro apedrejado pelos “guarimbeiros”, como são chamados na Venezuela os que armam barricadas. Após pedir ajuda à polícia, que teria ignorado seu pedido, Medina retornou à “guarimba” e dessa vez foi agredido por um dos jovens que mantinham o rosto coberto.
“Não estou de acordo com um golpe de Estado. Não posso apoiar o que critico (…), não apoio esse tipo de manifestação, essa não é a minha guerra”, afirmou.
Microempresário de marketing para redes sociais, Medina relatou a agressão que sofreu na rede social Facebook. A partir dai, seu testemunho se espalhou pela rede, compartilhado pelos dois lados.
Para os chavistas, o caso de Medina mostra a intolerância dos adversários. No lado opositor, a fotografia do jovem machucado chegou a ser utilizada como suposta “prova” da truculência policial durante um enfrentamento em seu bairro. “Quando vi isso, neguei. Não fui agredido pela polícia. Era mentira”, conta. A partir deste episódio passaram a qualificá-lo como traidor.
Saiba Mais: bbc
