Bets dos EUA transformam incêndios em negócio; entenda

Nova York enfrentou no sábado (18) uma sequência de extremos climáticos: depois de dias de calor forte e fumaça de incêndios no oeste de Ontário, no Canadá, tempestades severas alagaram ruas do SoHo, estações de metrô e vias expressas, além de deixar áreas vizinhas sob alerta de tornado. Em alguns pontos, caíram de cinco a dez centímetros de chuva em poucas horas. Em 2023, incêndios canadenses já haviam coberto Manhattan com um céu alaranjado e provocado a pior qualidade do ar na cidade desde os anos 1960.
Nos Estados Unidos, eventos como esses também viraram produto em plataformas de “mercados de previsão”, como a Polymarket. O modelo permite que usuários comprem cotas de respostas “sim” ou “não” sobre acontecimentos futuros; quanto maior a procura por uma resposta, mais cara fica a cota, e esse preço passa a funcionar como estimativa de probabilidade. Nos incêndios que atingiram Los Angeles no início de 2025, apostadores colocaram dinheiro em perguntas sobre quantos hectares o fogo consumiria, até onde chegaria e quando seria contido.
A lógica causa incômodo porque transforma tragédias reais em oportunidade de lucro. O incêndio que destruiu bairros de Altadena e matou 19 pessoas rendeu dinheiro a quem acertou a dimensão da destruição. Outra plataforma, a WyldFyre, dedica-se a apostas sobre fogo na Califórnia e usa o slogan de que ninguém prevê o fogo, “mas dá para negociá-lo”. Especialistas apontam riscos comportamentais e materiais: incêndios podem ser provocados por ação humana, e ganho financeiro é uma motivação clássica do incêndio criminoso.
O debate também alcança possíveis manipulações em eventos climáticos. Na França, sensores do aeroporto Charles de Gaulle registraram picos súbitos de temperatura que geraram pagamentos altos a apostadores, e a Météo-France levou o caso à polícia. Nos EUA, parlamentares propuseram vetar contratos ligados a terrorismo, assassinato, guerra e atividades ilegais, enquanto órgãos de combate a incêndio rejeitam tratar o fogo como ativo especulativo. No Brasil, plataformas de previsão como a Polymarket foram bloqueadas por enquadramento como aposta ilegal; por aqui, o debate sobre bets se concentra sobretudo em futebol e endividamento.
