Bolsonaro é um “liberal completo”, diz presidente da sigla que o abraçou
Reportagem de Marco Rodrigo de Almeida na Folha. Oficialmente Jair Messias Bolsonaro ainda não está filiado no PSL, ato que será feito daqui a dois meses.
Partido de pouca expressão nacional, o PSL vive momentos de destaque inédito em sua trajetória de duas décadas.
No dia 5, a sigla anunciou que “receberia Jair Bolsonaro e sua pré-candidatura à Presidência da República”.
A palavra “filiação” não consta no termo divulgado à imprensa, mas o presidente do PSL, o deputado federal Luciano Bivar (PE), diz à Folha que, “tão certo como dois e dois são quatro”, o pré-candidato, hoje no PSC, migrará para seu partido em março.
O acordo com o segundo colocado na corrida presidencial até o momento, segundo pesquisas do Datafolha, lançou luz sobre a sigla nanica, mas também provocou uma cisão: o movimento Livres rompeu uma união de quase dois anos com o PSL, que tinha como objetivo refundar o partido com nova liderança.
Para os líderes do grupo, Bolsonaro representa o extremo oposto dos valores liberais, tanto em termos econômicos quanto comportamentais, que deveriam nortear a nova fase do partido.
Bivar, entretanto, diz que as críticas são preconceituosas. “Foi um absurdo. A maior parte do partido foi favorável à união. Ter preconceito contra uma pessoa é fundamentalismo. Eu lamento.”
Bolsonaro representa, diz Bivar, os princípios fundadores do partido: a economia de mercado, as liberdades individuais, a livre expressão de ideias, a autonomia das instituições, o Estado de Direito.
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Bivar minimiza declarações do pré-candidato que contrariam essa imagem, como o elogio coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos principais símbolos da repressão durante a ditadura militar, durante votação do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) na Câmara, em 2016.
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Bivar também não vê contradição em um suposto liberal fazer elogios a uma ditadura.
“É preciso entender que naquele período [na ditadura] estávamos diante de uma situação muito delicada. A ameaça comunista era muito grande. Então o povo clamou pelos militares”, diz.
“Eu faço alguns elogios ao regime militar também. Toda a infraestrutura do Brasil foi feita no governo militar. Foi um regime de transição, e os próprios militares devolveram o poder de forma absolutamente espontânea. Reconhecer isso não torna ninguém menos liberal.”
Sobre o fato de Bolsonaro ser réu Supremo Tribunal Federal, sob acusação de incitação ao estupro, avalia que as falas dele tiveram seu sentido deturpado. Em discurso no plenário da Câmara, em 2014, Bolsonaro disse que só não estupraria a colega Maria do Rosário (PT-RS), ex-ministra de Direitos Humanos, porque ela “não merecia”.
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Segundo Bivar, Bolsonaro foi atraído pelo discurso transparente e probo do PSL.
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Luciano Bivar foi eleito para a Câmara Federal pela primeira vez em 1998. Iniciou seu segundo mandato, como suplente, em julho do ano passado. Candidato a presidente em 2006, sempre pelo PSL, recebeu 0,06% dos votos.
Além da política, tem longa atuação como dirigente esportivo. Foi quatro vezes presidente do Sport Club do Recife.
Em maio de 2013, foi suspenso do posto por 180 dias, pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, após ter declarado que pagou a um lobista para “empurrar” um jogador do Sport, Leomar, para a seleção brasileira em 2001.
Na ocasião, Bivar disse que a decisão foi absurda. “Eu fiz marketing. Então a 9ine, do Ronaldinho, também deveria ser suspensa. É uma empresa de marketing”, declarou.
Em dezembro de 2013 se afastou do comando do clube para se dedicar à campanha eleitoral do ano seguinte.
Na eleição deste ano pretende se reeleger deputado federal.

