Apoie o DCM

Bolsonaro usa dados falsos sobre nióbio e ignora a realidade econômica

Do Poder 360:

Segundo colocado na corrida presidencial para 2018, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) tem sido um arauto dos benefícios de mudanças em políticas governamentais para o nióbio no Brasil. Sempre que pode, fala que o elemento químico pode nos dar a independência, em um discurso bastante desenvolvimentista e nacionalista.

As ideias do deputado em relação a commodity podem ser resumidas, em grande parte, no pronunciamento que fez na Câmara dos Deputados em setembro de 2016:

“90% do nióbio negociado no mundo vem do Brasil e o restante, basicamente do Canadá. O nióbio pesa na balança comercial deles; aqui o peso é praticamente insignificante. […] fica-se fazendo economia em cima do desgraçado do aposentado ou do teto para o servidor, e deixamos vazar bilhões de dólares entregando riquezas minerais para os chineses!”

Classificação: falso

O mito do nióbio, ressuscitado por Bolsonaro, surgiu na década de 1990 com Enéas Carneiro. O Brasil detém as maiores reservas conhecidas do elemento, com 98,43%, e, de fato, trata-se de um metal resistente a corrosão e temperaturas extremas. É útil na siderurgia para produção de ligas de aço, pois as torna mais resistentes. Assim, tem utilidade em indústrias diversas, como automobilística, aeroespacial, eletrônica e militar. Considerando a média atual do preço internacional da commodity, calcula-se que o valor das reservas chega a trilhões de dólares.

Duas empresas exploram a atividade no Brasil, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, controlada pelo grupo Moreira Salles, contando ainda com diversos investidores minoritários asiáticos, e a Mineração Catalão de Goiás, controlada pela britânica Anglo American. Como as negociações do produto não decorrem de bolsa, especula-se que os valores poderiam ser maiores. Os críticos do modelo atual de exploração do nióbio no Brasil propõem o controle do preço de comercialização do produto e, em alguns casos, a estatização da produção como forma de solucionar os problemas financeiros do Brasil.

Defender uma política protecionista para o nióbio como salvação das contas públicas brasileiras é um enorme exagero. A lei da oferta e da demanda define o preço de quaisquer commodities do mundo, e o nióbio não é insubstituível. Há ao menos três outros elementos que podem ser utilizados como alternativas, o vanádio, o tântalo e o titânio.

Isto é: se o Brasil controlar o preço do nióbio no mercado internacional, com um preço mais elevado, os consumidores podem migrar para outras alternativas. Ademais, tudo leva a crer que as empresas privadas que atuam no setor já estão praticando o maior preço possível da commodity.

(…)

Dessa forma, além de um discurso populista, não há qualquer sustentação econômica nesse posicionamento de Bolsonaro. Ao criticar o corte nas despesas públicas, a reforma da previdência ou a PEC do Teto, e ao afirmar que a solução seriam mudanças nos arranjos institucionais do nióbio, o político está equivocado.

CORREÇÃO: A operação em Catalão não pertence mais à Anglo American. O grupo vendeu suas operações de nióbio e fosfato para a chinesa Cmoc International, braço internacional da chinesa China Molybdenum (Cmoc), em setembro de 2016.

Portanto, a Mineração Catalão, de Goiás, é controlada pela CMOC, e não mais pela Anglo American.