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Boneco de Judas some das ruas: tradição tem os dias contados?

Fábrica em Salvador mantém a tradição de confeccionar “Judas” para serem queimados. Foto: Reprodução/TV Bahia

O Sábado de Aleluia (4) amanheceu com menos fogo nas ruas da Bahia. Uma fábrica no bairro do Pau Miúdo, em Salvador, produziu apenas 400 bonecos de Judas para serem queimados – 60% a menos do que os mil exemplares vendidos em tempos áureos. Com papel, goma e madeira, cada “traidor” sai por R$ 350, podendo ganhar rosto de político ou camisa de time, mas a procura despencou. Herdeiros do fundador Florentino Fogueteiro temem que a tradição de quase 60 anos vire fumaça.

A malhação do apóstolo que vendeu Jesus por 30 moedas de prata foi trazida por portugueses e sempre foi um dos rituais mais aguardados da Semana Santa. Só que o feriadão e a queda do fervor católico estão matando a festa. “As pessoas querem viajar, perderam o hábito de juntar os vizinhos”, lamenta um dos sócios. Em Salvador, o boneco vai para a fogueira; em outros lugares, é espancado até virar pó. Mas a tradição também perde espaço para rivalidades mais modernas, como o “baba de saia” – homens vestidos de mulher jogando futebol.

Junto com o Judas, vai um testamento de mentirinha, onde o “traidor” distribui heranças afiadas: deixa a “língua ferina” para o fofoqueiro do bairro e os “buracos” para a prefeitura. Apesar do clima de despedida, os fabricantes resistem. “Ele fez um pedido para que a gente não deixasse morrer a tradição. E a gente tem tentado até hoje”, diz Fernando Encarnação, em referência ao antigo mestre. Resta saber se o Judas vai continuar virando cinza ou se vai sumir das ruas de vez