Brasileira vítima de Epstein diz que perdeu a memória após anos de abusos; entenda

A brasileira Marina Lacerda, hoje com 38 anos, relatou que bloqueou por quase duas décadas memórias dos abusos que sofreu após ser cooptada, aos 14 anos, pela rede de exploração e tráfico sexual de menores comandada por Jeffrey Epstein. “Meu cérebro rejeitou tudo aquilo para que eu pudesse continuar vivendo”, disse ela em entrevista.
As lembranças começaram a voltar no ano passado, depois que Marina ouviu o relato de uma amiga que também havia sido aliciada na época. Ela contou que, em 2008, o FBI a procurou durante as primeiras investigações e a identificou como “Vítima Menor 1”. Segundo Marina, advogados ligados ao financista a manipularam e a convenceram de que ela poderia ser acusada de tráfico sexual caso colaborasse com as autoridades.
Após a morte de Epstein na prisão, em 2019, o FBI voltou a procurá-la. Marina decidiu deixar o anonimato em setembro de 2025. Ela também relatou que sua história de violência começou antes: natural de Belo Horizonte, mudou-se ainda criança para os Estados Unidos com a mãe e disse que sofreu abusos sexuais do padrasto até os 12 anos. Em 2019, afirmou ter vivido um período de forte declínio psicológico, com abuso de medicamentos e álcool.
A psicóloga e sexóloga Lais Melq explicou que lapsos de memória, lembranças fragmentadas e relatos não lineares aparecem com frequência em experiências traumáticas e integram critérios relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático no DSM-5. Luciana Temer, professora de direito da PUC-SP e presidente do Instituto Liberta, afirmou que memórias traumáticas podem permanecer inacessíveis por longos períodos “até como uma espécie de defesa da vítima”. Melq também destacou que forçar uma pessoa a recordar algo antes de ela estar preparada pode aumentar o sofrimento.
