Caetano diz que vota em Ciro, que impeachment colocou bandidos no poder e que Lava Jato é “neolacerdismo”

Publicado em 29 outubro, 2017 7:14 am

 

Caetano deu uma boa e longa entrevista à Folha. Alguns trechos:

  • Tudo me parece muito complexo. Eu não era fã de Dilma como política. Ela mostrou não ter muito talento para essa atividade. Nunca fui petista. Lula é uma grande figura histórica, aconteça o que acontecer com ele. Sinceramente, achei o período de Palocci com Lula o melhor do PT no poder, mas não me surpreenderam as revelações de corrupção. Talvez pela própria pinta de Palocci.
  • Mas a Lava Jato tinha muita cara de neolacerdismo. A desconfiança de que tudo era para desfazer o PT estava tanto entre esquerdistas que, com razão, pensam que o nosso primeiro problema é a desigualdade campeã, quanto entre figuras como Romero Jucá, Aécio Neves ou o próprio Temer, que querem levar vantagem e mover-se de modo a não atrapalhar a manutenção dessa desigualdade. Ou seja, os esquerdistas temiam que a força-tarefa fosse apenas uma trama para destruir Lula e o PT, e os conservadores corruptos esperavam exatamente isso dela. O comentário de Jucá querendo acelerar o processo de “estancar a sangria” é prova disso.
  • Fui contra o impeachment. Eu estava em São Paulo, no hotel Emiliano, quando o telefonema de Dilma, aquele do “Bessias”, era divulgado pelo “Jornal Nacional”. Eu tinha saído pra comprar alguma coisa na farmácia e, ao voltar, vi as ruas cheias de gente gritando. Perguntei aos porteiros do hotel o que era aquilo e eles logo me disseram exatamente do que se tratava. Vi essa gente festejando a futura queda de Dilma e me senti tão estranho a essa turba quanto às marchadeiras de 1964.
  • Acho até hoje feio que o juiz Moro tenha divulgado o telefonema irregularmente. O Power Point que tinha Lula no centro, apresentado pelos procuradores de Curitiba, também me pareceu suspeito. A novidade de ver empresários e políticos graúdos sendo presos não pode deixar de ter impacto sobre nós, sobre mim. Por outro lado, os discursos dos parlamentares no dia do impeachment mostraram um Brasil retrógrado e, como é o caso da homenagem de Bolsonaro ao torturador Ustra, um Brasil ameaçador das liberdades democráticas.
  • O impeachment seguiu ritos, mas via-se que os princípios constitucionais estavam sendo interpretados com muita folga, que a sensação de insegurança tendia a crescer. Mas o mais chocante é que um punhado de bandidos que estão sob acusações mais fortes (e com provas mais contundentes) do que as enfrentadas por Dilma mantêm-se no poder, seja como presidente da República, seja como ministros seus, seja como legisladores.
  • Hoje me pergunto por que Delfim Neto, que foi entusiasta do AI-5, só agora escreve contra a judicialização da política e a politização da Justiça. É fascinante que ele ressalte a importância das casas legislativas acima do Judiciário como defesa contra a “ditadura das minorias”: o Judiciário, por não depender de voto popular, pode defender as minorias contra a ditadura da maioria. Por que Delfim frisa exatamente a força oposta neste momento? O timing diz muito.
  • Eu, inclusive porque quero compensar o nítido boicote que os grandes jornais fazem a seu nome, estou com Ciro Gomes. A imprensa nunca lembra que ele é dos pré-candidatos mais assumidos e que ele tem explicitado, em palestras cujos vídeos saem na internet, um projeto para o Brasil. Desde que o conheci, garoto, prefeito de Fortaleza, achei que ali nascia um grande quadro político. Depois, foi meu candidato à Presidência.
  • Embora eu ame Marina, sua figura, sua história, e me sinta esmagado pela imensidão do problema ambiental (que ela toma para si e Ciro parece desprezar), fico com Ciro, que é a figura de político que crê na política, que apresenta planos claros para o país e que poderá fazê-lo forte, inclusive para combater a destruição do meio ambiente.
  • Para quem fala em timing, sei que sou incoerente aqui: a ameaça ecológica é urgente e eu falo em Ciro fortificar o país para poder, depois, lutar contra o desmatamento e o aquecimento global. Mas a causa ambiental é alimentada por visões apocalípticas e fantasias (fecundas) de recriação de cosmovisões contrastantes com a história moderna e, portanto, com a política democrática. Para mim não é um tema fácil. Mas teremos uma eleição dentro de um ano e será melhor injetar saúde na nossa vida política do que deixar que a antipolítica possibilite uma situação opressiva.
  • Acho natural a persistência do prestígio de Lula. Com o histórico pessoal, com os conseguimentos do seu período de governo (que lançou o Bolsa Família e elevou o salário mínimo, estimulando o consumo e mudando a aparência da sociedade brasileira), com seu talento para falar às multidões, seria absurdo que ele não tivesse a força popular que tem. Pode até ser que uma prisão de Lula tenha uma percentagem do efeito morte de Getúlio.
  • A polarização Lula versus Bolsonaro está no ar. Mas seria melhor que essa cena não dominasse a eleição. As forças conservadoras perceberam que já não podem mais ser a “maioria silenciosa”. Temas como a luta contra a desigualdade, os avanços sociais, como união estável de casais homoeróticos, reconhecimento do racismo estrutural da sociedade brasileira, defesa dos direitos da mulher, com atenção para a mais abrangente possível descriminalização do aborto, enfim, assuntos que eram bandeiras da contracultura dos anos 1960, ganharam força (inclusive conquistando as esquerdas, que tinham esses temas como desvios pequeno-burgueses) e a direita não pode mais ficar calada.