Com Selic a 15% no Brasil, bilionário ganha R$ 400 mil por dia sem se mexer

O economista Ladislau Dowbor, professor titular da pós-graduação da PUC-SP e ex-consultor de agências da ONU, afirma que a taxa básica de juros em 15% cria distorções profundas na economia brasileira. Segundo ele, um bilionário que aplica R$ 1 bilhão em títulos públicos atrelados à Selic pode ganhar mais de R$ 400 mil por dia sem produzir bens ou serviços.
Para ilustrar o mecanismo, Dowbor descreve como fluxos financeiros do cotidiano acabam concentrados em grandes grupos globais. Ele cita o caso de pagamentos feitos a serviços básicos que, ao passar por sistemas financeiros e planos privados, chegam a gestoras como a BlackRock, mostrando como parte da renda de trabalhadores no Brasil é transferida para conglomerados internacionais.
O economista sustenta que a concentração de renda fragiliza a demanda e, por consequência, a produção. Com famílias consumindo menos, empresários veem maior risco em investir e enfrentar custos de crédito elevados, enquanto aplicações financeiras garantem retorno alto e imediato. Para Dowbor, isso desloca o eixo da economia do investimento produtivo para o rentismo.
Ele compara o cenário brasileiro com outros países. Na China, diz, o crédito produtivo opera com juros próximos de 2% ao ano, o que desestimula a especulação financeira e incentiva a produção. Na Europa, as taxas ficam entre 3% e 4%, enquanto no Brasil empresas chegam a pagar cerca de 25% ao ano.

Dowbor também critica o foco exclusivo no controle fiscal. Para ele, políticas públicas em áreas como saúde, educação e infraestrutura ampliam o chamado salário indireto das famílias e fortalecem o ciclo econômico. O economista cita exemplos de países como o Canadá, onde serviços públicos reduzem custos privados e elevam o bem-estar.
Na avaliação do professor, programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, ajudam a dinamizar a economia ao elevar o consumo. Ele afirma que o efeito multiplicador desses gastos retorna ao Estado por meio de impostos e atividade econômica, contrariando a visão de que se tratam apenas de despesas.
Outro ponto levantado é a estrutura tributária brasileira, fortemente baseada no consumo. Dowbor argumenta que esse modelo pesa proporcionalmente mais sobre a base da população, enquanto rendas altas mantêm grande parte dos ganhos livres para aplicações financeiras, reforçando a desigualdade.
Por fim, o economista defende uma parceria mais ativa entre Estado e setor produtivo para direcionar recursos a investimentos geradores de emprego e inovação. Sem essa mudança, diz, o país tende a perpetuar um sistema em que ganhos financeiros superam os produtivos, com impacto direto sobre crescimento e distribuição de renda.
