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Correspondente americano se choca ao ser medicado no Brasil com vermífugo de gado

Do correspondente no Brasil do The Washington Post, Terrence McCoy:

Lá estava, a palavra que temíamos há 10 meses e fizemos quase tudo que podíamos para evitar: “Detectado”. O teste de coronavírus da minha esposa acabara de dar positivo. Agora havia ligações a fazer e preocupações a considerar.

No ano passado, enquanto o fracasso do Brasil em controlar o coronavírus rompia os sistemas hospitalares e gerava o pior desastre humanitário da história do país, muitas vezes me perguntei o que aconteceria se Emily ou eu ficássemos doentes. Os medos surgiram de repente, depois que entrevistei alguém de luto por um ente querido que morreu incapaz de receber tratamento hospitalar. Ou quando olha as manchetes cada vez mais alarmantes do jornal local. (…)

Agora estava aqui, em nossa casa. Na esperança de evitar o pior, mas sem saber como, começamos a fazer ligações. Ligamos para um médico nos Estados Unidos. Ele disse que estava quase certo de que eu também tinha sido infectado e aconselhou repouso, isolamento, hidratação – e pouco mais. (…)

Então começamos a chamar médicos no Brasil. Eles pediram uma abordagem muito mais urgente e agressiva .

“É importante que você chegue [à minha clínica] para que não piore”, pressionou um médico. Em setembro, ela prescreveu um amigo meu – cujos sintomas incluíam dores de cabeça eperda de paladar e olfato – uma ladainha de medicamentos pelos quais ele passou a jurar. Cloroquina, um antimalárico. Ivermectina, um medicamento parasita usado em gado e cães. Azitromicina, um antibiótico. Clexane, um anticoagulante. Um corticosteróide. (…)

Ansiosos e inseguros, recebemos a azitromicina e a ivermectina e (…) caímos em um plano de tratamento para o coronavírus que varreu o país, apesar das escassas provas científicas. O plano de pílulas, adotado por funcionários de todo o Brasil, enviou milhões às farmácias e entrou nas diretrizes do governo federal.(…)

Mas poucos impulsionaram os medicamentos não comprovados e potencialmente prejudiciais com o entusiasmo, o compromisso e a teatralidade do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. (…)

Sua pílula preferida há muito é – e ainda é – hidroxicloroquina. Ele apregoa nas redes sociais. Ele o elogia em comentários aos apoiadores. Quando o Bolsonaro foi infectado em julho, ele afirmou ter se medicado como antimalárico, depois acenou com uma caixa para pássaros parecidos com emas no gramado do palácio presidencial em Brasília. Em uma cerimônia presidencial depois de se recuperar, ele brandiu outra caixa da droga e chamou a si mesmo de “Dr. Bolsonaro. ”

“O tratamento precoce salva vidas”, declarou Eduardo Pazuello, o terceiro ministro da Saúde de Bolsonaro desde o início da pandemia. (…)

Começamos a procurar mais médicos. Seis ao todo. Um disse para tomar os comprimidos. Outra disse que ela mesma havia tomado azitromicina. Saí pensando nas farmácias que conhecia pelo Brasil. Eles estão absolutamente em toda parte, às vezes três em um único bloco. De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, o país é conhecido por um dos maiores índices de consumo de comprimidos do mundo e as pessoas se automedicam rapidamente. Na dúvida, a lógica parece ir, engula um comprimido.(…)

De certa forma, o mito do tratamento precoce é produto do próprio coronavírus. As pessoas acreditarão que uma pílula as curou – ou um ente querido – quando, na realidade, a grande maioria das pessoas que contraem o vírus se recuperam sem qualquer intervenção médica.(…)

Emily e eu estávamos convencidos. Paramos de tomar os comprimidos. Em vez disso, focamos no descanso, nos líquidos e na televisão ruim. Testes adicionais confirmaram que eu também havia contraído o vírus. Mas depois de algumas semanas – e uma perda desorientadora de paladar e cheiro – estávamos praticamente recuperados. Apesar de todas as preocupações com o sistema hospitalar, nenhum de nós nunca ficou doente o suficiente para pensar em ir a um.(…)