Nova técnica reacende debate sobre bebês geneticamente modificados

Dois novos estudos indicam que cientistas conseguiram editar o DNA de embriões humanos em estágio inicial com precisão maior do que a obtida por técnicas anteriores. Os trabalhos usaram a edição de bases, uma versão mais precisa do CRISPR capaz de alterar uma única letra do DNA, em embriões doados por pessoas submetidas a fertilização in vitro. O avanço sugere que a edição genética hereditária pode se tornar tecnicamente viável no futuro, embora ainda enfrente obstáculos relevantes de segurança.
A pesquisa liderada por Kathy Niakan, professora de fisiologia da reprodução e diretora do Centro Loke de Pesquisa do Trofoblasto da Universidade de Cambridge, investigou o papel do gene NANOG no desenvolvimento embrionário humano e foi publicada em 25 de junho na revista Nature. “A edição de bases pode alterar com precisão um único par de nucleotídeos por outro em todo o genoma humano, que possui cerca de 3 bilhões de pares de bases — isso é uma façanha incrível”, afirmou Niakan. Em outro estudo, Dietrich Egli, professor associado de biologia celular do desenvolvimento na Universidade Columbia, usou a técnica para inserir mutações em genes ligados ao colesterol e à hemoglobina fetal.
Apesar do avanço, os pesquisadores encontraram problemas que impedem o uso clínico seguro da técnica. Alguns embriões apresentaram mosaicismo, quando a alteração pretendida não ocorre em todas as células, e também houve efeitos fora do alvo, nos quais genes não planejados sofreram mudanças. “Esta é uma longa escadaria com muitos degraus diferentes e talvez alguns platôs no meio”, disse Egli. “Começamos lá embaixo e demos alguns passos nessa direção, mas acho que podemos analisar o progresso que foi feito e discutir os prós e os contras de ir mais longe.”
O debate ocorre em meio a restrições legais e éticas: a edição da linhagem germinativa humana, que altera embriões de forma transmissível às futuras gerações, é considerada perigosa pelo consenso científico e enfrenta limitações em cerca de 70 países. A bioeticista Laurie Zoloth, professora da Universidade de Chicago, defende que a edição de embriões permaneça proibida fora da pesquisa científica por razões de segurança, citando a falta de compreensão sobre efeitos de longo prazo e o risco de abrir caminho para “bebês sob medida”.
