Cristina Kirchner: “A democracia está em emergência em toda a América Latina. Vejam a destituição de Dilma”
Do El Pais:
Enquanto esteve no Governo, Cristina Kirchner jamais concedeu uma entrevista a um meio de comunicação que não estivesse afinado com ela – e pouquíssimas aos veículos mais próximos. Agora, na oposição, quando tenta vencer as eleições para o Senado em Buenos Aires, em 22 de outubro, e voltar à política com força, decidiu se submeter de novo às perguntas de jornalistas não afins, sem limites.
Na primeira entrevista para inaugurar essa nova política, ao Infobae, conduzida por Luis Novaresio, um homem muito crítico a ela, desenhou durante quase duas horas um país governado por Mauricio Macri com problemas sérios de solidez democrática, a ponto de compará-lo com a Venezuela: “Na Venezuela não há Estado de direito, e na Argentina tampouco há Estado de direito. Pois vejam, temos um desaparecido há 42 dias [o ativista mapuche Santiago Maldonado], e ninguém disse absolutamente nada, ninguém se encarrega de nada, e quando essa pessoa desapareceu houve uma operação de segurança encabeçada pela Gendarmeria (polícia militar)”, observou. Mas Kirchner estendeu esse problema de retrocesso da democracia a todo o continente, e também citou o exemplo do Brasil: “A democracia está em emergência em toda a América Latina. Vejam a destituição de Dilma Rousseff.”
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Cristina insistiu muito na ideia de que com Macri a democracia argentina piorou muito. E o fez de forma bastante crua. “Me chamavam de égua, puta e montonera, e não botamos ninguém na cadeia. Hoje prendem um menino por mês por causa de um tuíte. As pessoas têm medo. Durante o meu governo houve uma liberdade absoluta na Argentina, podiam colar cartazes contra um jornalista ou pôr que eu era égua, puta e montonera. Vi cartazes comigo pendurada, enforcada. Nunca se reprimiu ninguém. Em três mandatos, não houve nenhum morto por repressão. A democracia é também que se possa insultar o presidente.”
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Esta eleição é determinante porque, se ela ganhar, quase certamente será candidata presidencial em 2019, mas se perder os peronistas tentarão abandoná-la para procurar uma alternativa. A ex-presidenta antecipou que poderia se distanciar em nome da unidade: “Se em 2019 eu for um obstáculo para obter a unidade do peronismo e ganhar as eleições, não serei nenhum obstáculo”. Mas por enquanto ela está em outra batalha: ganhar em Buenos Aires para voltar a ser a líder da oposição. Está difícil, mas a entrevista e o impacto que causou nos meios de comunicação demonstra que ela conserva uma enorme capacidade de ocupar o espaço político.
