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Dilma: “Se tivermos um plano B para Lula estamos fazendo o trabalho que eles querem”

Dilma falou ao El Pais sobre o julgamento de Lula e o golpe: 

Para a ex-presidenta, sua saída do cargo – após ser julgada pelo Congresso Nacional e considerada culpada por ter feito decretos que impactavam na meta fiscal primária sem autorização parlamentar e por fazer uma operação de crédito irregular – está conectada com o julgamento de Lula.

“Eu acredito que o golpe que houve no Brasil em 2016 não é um ato isolado. É um processo. O impeachment é o ato inaugural. O segundo momento é a adoção de todo esse programa de Governo”, ressalta ela, elencando medidas de seu sucessor, como a lei que implementou o teto de gastos públicos e a aprovação da reforma Trabalhista.

“Agora, para aprovar a pauta que falta, como a reforma da Previdência, é preciso o terceiro ato. Se tira a maior ameaça deste projeto do caminho: o presidente Lula. Ele hoje tem quase 40% das intenções de votos. Caiu a rejeição construída ao longo do processo de impeachment e das grandes manifestações. Se ele não for tirado do pleito, ganha.”

Ela diz acreditar que a sentença contra Lula possa ser revertida na segunda instância. “Mas se ele for condenado, vamos usar todos os instrumentos jurídicos que estão à nossa disposição. Vamos fazer todas as mobilizações de que somos capazes. Mas não acho que isso se traduzirá em atos agressivos e violentos”, acredita ela, rechaçando a preocupação que circula pelo país de uma revolta pelo resultado. Mas o fato é que a saída de Lula traz ao PT uma preocupação adicional à perda de seu principal líder político e ao desgaste para a já abalada imagem do partido, com diversos dirigentes condenados por corrupção: a ausência de um nome novo forte para substituí-lo na disputa.

“Em qualquer país do mundo, as lideranças surgem num processo histórico. São formadas, passam a ter experiência. Acho que existe uma manipulação nesta história do novo. Ninguém surge do nada”, diz ela, ao ser questionada do porquê de a esquerda não ter conseguido produzir alternativas a Lula. “Essa história do Donald Trump e, no Brasil, do [apresentador Luciano] Huck é que é o absurdo da análise política”, ressalta ela.

“Para que querem que nós tenhamos um plano B? Se tivermos um plano B estamos fazendo o trabalho que eles querem por eles. Por que vamos tirar o Lula do pleito por uma acusação da qual achamos que ele é inocente? Para ganhar a eleição? Que eleição que importa alienar um líder do tamanho do Lula por uma acusação? Que covardia é essa? Para gáudio dos golpistas, dessa direita e dessa oligarquia atrasada do país?”, prossegue. “Os que querem o plano B são os mesmos que queriam que eu renunciasse. E por que eles queriam isso? Por que tinham alguma consideração por mim? Não! Porque eu impediria um striptease político de um golpe claramente feito.”

(…)

O mercado acha que continuando do jeito que está sobrevive neste país? Você acha que o mercado não tem um princípio de realidade para ver que se tem alguém que pode reconstruir o país [é o Lula]… O Lula é um negociador. Não é um radical.”

Dilma e Lula. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula