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Dopamina não é prazer: por que a “desintoxicação” não tem base científica

Homem usando celular antes de dormir. Foto: reprodução

A dopamina não codifica diretamente o prazer, apesar de ser frequentemente apresentada como a molécula por trás dos vícios modernos e da satisfação pessoal. Estudos sobre o sistema de recompensa apontam que ela participa sobretudo da aprendizagem e da antecipação: sua atividade registra a diferença entre a recompensa esperada e aquilo que o organismo efetivamente recebe.

Experimentos clássicos do neurofisiologista Wolfram Schultz mostraram que neurônios dopaminérgicos de macacos passaram a se ativar diante do sinal que anunciava a chegada de suco, e não quando a bebida era entregue, após o aprendizado da associação. Quando a recompensa esperada não vinha, a atividade caía. O mecanismo, conhecido como erro de previsão da recompensa, ajuda o organismo a ajustar escolhas e a motivação para repetir ações.

A chamada desintoxicação de dopamina, difundida em recomendações para evitar telas, prazeres ou estímulos, não tem base científica sólida. Drogas como cocaína e opioides provocam aumentos farmacológicos, intensos e prolongados de dopamina, o que não se compara a notificações ou à rolagem de redes sociais.

Sono, atividade física e tempo ao ar livre podem melhorar a saúde e o bem-estar, mas não por uma suposta reinicialização hormonal: os efeitos da dopamina dependem do contexto, das condições de vida e dos objetivos de cada pessoa.