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Duas vezes secretário de Segurança em São Paulo, Temer não reduziu índices de violência

Reportagem de Cleide Carvalho no Globo.

O ano era 1992. No dia 2 de outubro, 111 presos foram mortos dentro do Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, fuzilados por policiais militares, no maior massacre de detentos já ocorrido no país. Seis dias depois, Michel Temer assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a convite do então governador Luís Antônio Fleury Filho. Pouco depois da posse, reuniu os comandantes da PM para transmitir “apoio total” à corporação.

Já empossado, em entrevista, disse que os envolvidos no massacre do Carandiru deveriam descansar.

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Temer foi secretário de Segurança de São Paulo em duas gestões e, em ambas, teve mais mérito na tentativa de apaziguar os ânimos entre polícia e sociedade do que na redução dos índices de criminalidade. No governo Fleury, ocupou o cargo de outubro de 1992 a novembro de 1993. Segundo dados do Mapa da Violência, elaborado pelo professor Julio Jacobo, em 1992 os homicídios chegaram a 11.073 no estado. Em 1993, foram 11.824. Em 1994, com Temer já fora, foram 11.036 mortes.

Descrito por colegas como culto, polido e com postura professoral, Temer abriu diálogo com entidades de direitos humanos e ganhou a simpatia da corporação. Segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas, quando secretário ele implantou tratamento psiquiátrico para policiais que tivessem participado de confrontos seguidos de morte e determinou que fosse feito exame residuográfico (mede vestígios de pólvora) nas mãos dos criminosos mortos, para controlar a violência da Polícia Militar.

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Segundo Mingardi, a violência policial em São Paulo só diminuiu depois do primeiro mandato do governador Mário Covas (1995-2001), que criou a Ouvidoria da Polícia e a entregou a um ativista dos direitos humanos.

Registros do CDOC apontam que, na gestão Montoro, Temer tentou reestruturar a polícia estadual com uma lei de sua autoria, que estabeleceu aposentadoria compulsória para delegados de polícia que completassem 30 anos de serviço público — 25 dos quais, no mínimo, dedicados ao serviço policial — e que estivessem há pelo menos cinco anos na classe especial, o nível mais alto da carreira, em uma tentativa de afastar antigas lideranças. A iniciativa gerou uma rebelião por parte dos delegados de polícia.

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A gestão de Temer como secretário foi, ainda, alvo de uma denúncia, que acabou arquivada. O deputado Joaquim Carlos Del Bosco Amaral denunciou que a campanha de Temer a deputado federal constituinte, em 1986, teria recebido dinheiro do jogo do bicho, arrecadado nas delegacias de São Paulo. Em troca, a polícia teria pouca atuação contra os bicheiros. A representação acabou arquivada em 2006 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

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Sobre as denúncias de recebimento de dinheiro do jogo do bicho para campanha eleitoral, a Presidência disse que elas “são completamente infundadas”.

Michel Temer quando era secretário de Segurança em SP. Foto: Reprodução