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Economista-chefe do Itaú diz que rebaixamento do Brasil é “responsabilidade coletiva”

A repórter Flavia Lima entrevistou Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco. Ele comenta na Folha de S.Paulo o rebaixamento da nota de crédito do Brasil e comenta a crise econômica, o papel de Temer e até a candidatura de Lula em relação ao mercado.

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Folha – O que muda com o rebaixamento do Brasil?

Mario Mesquita – Poderia haver uma piora importante dos preços de ativos, queda da Bolsa e alta do dólar. Mas o cenário global benigno tem mitigado reações mais fortes dos ativos ao noticiário local.

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Houve complacência do mercado com o governo?

Não vejo assim. É importante lembrar que o governo foi capaz de aprovar reformas estruturais importantes, como a trabalhista e a nova TLP [juro de empréstimos do BNDES].

Onde o governo Temer errou?

O rebaixamento é resultado da dificuldade no avanço do ajuste fiscal, que não se viabiliza sem a Previdência. O governo foi prejudicado pela falta de apoio no Congresso para a aprovação da reforma. O rebaixamento é resultado de responsabilidade coletiva.

A Previdência sai neste ano?

Não. As chances são menores do que 50%.

A aprovação pós-eleições não teria mais legitimidade?

Se fosse preciso ter chancela eleitoral, não deveríamos ter passado nenhuma reforma. A legitimidade está no Congresso, que foi eleito.

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A reforma da Previdência ajudaria?

Do jeito que ela está desenhada hoje, geraria economia de R$ 15 bilhões já a partir de 2019 se fosse aprovada neste ano. O governo teria que buscar outros R$ 15 bilhões em medidas como a reoneração da folha de salários ou mudanças no abono salarial.

Ou seja, sem reforma neste ano, não seria possível cumprir o teto?

Só a reforma não resolve e sem ela fica muito mais difícil.

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A inflação se mantém baixa?

Um pouco abaixo de 4% neste ano. Mais adiante, só com consolidação fiscal. Sem isso, a dívida pública segue trajetória insustentável e, em algum momento, investidores tendem a ir para outros ativos, como imóveis e dólar. Uma fuga para o dólar, como em 2002, pressionaria a inflação.

E o juro?

Há espaço para mais dois cortes na taxa Selic, chegando a 6,25%.

Quando o juro volta a subir?

A partir do segundo trimestre de 2019, para perto de 8%. Seria a consolidação do novo ambiente: terminar o próximo ciclo de alta de juro abaixo de 10%. A reforma da Previdência em 2019 viabiliza essa trajetória. Sem ela, no mais tardar, no primeiro semestre de 2019, haverá combinação mais adversa de inflação e juro.

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O BNDES vai deixar de ser indutor da economia?

O BNDES é uma fonte, não precisa ser a única. Uma transição para uma economia em que o Estado tem um papel de menor protagonismo e o setor privado é mais efetivo na liderança seria benéfica.

Mesmo sendo um país tão desigual?

O Estado emprestar recursos por meio de instituições financeiras para algumas das famílias mais ricas do país não pode ser considerado política redistributiva. Não defendo o Estado mínimo. Mas teve ano em que governo gastou mais subsidiando consumo de energia à classe média do que com o Bolsa Família. Faz sentido social? Não parece fazer.

Qual a projeção para o PIB?

Alta de 3% neste ano e de 3,7% no ano que vem. Mas há incerteza sobre a continuidade da política econômica.

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O mercado reedita a aversão a Lula de 2002, mas ele é um político pragmático, não?

O mercado é pragmático. Vai olhar não só a personalidade do candidato mas também o entorno dele e a capacidade de articular com o Congresso. A melhor ideia do mundo com o apoio de dez deputados não funciona. Grande apoio com falta de clareza sobre o ajuste também não.

A margem para erro e experimentação foi totalmente consumida no governo anterior. Saindo de uma dívida pública de 75% do PIB, se o novo governo entrar errando, a chance de piorar de forma mais aguda será grande.

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Mario Mesquita. Foto: Reprodução/YouTube