Espanha em crise questiona gastos milionários no futebol
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Mesmo mergulhada em profunda crise econômica, a Espanha é a recordista deste ano em compra e venda de jogadores de futebol, segundo o Football Transfer Review 2014, estudo feito pela consultoria esportiva Prime Time Sport e divulgado recentemente.
De acordo com o estudo, os clubes da La Liga, como é conhecida a primeira divisão do campeonato espanhol, triplicaram o investimento em contratações de jogadores (388 milhões de euros, ou R$ 1,1 bilhão) em relação à temporada passada e bateram o recorde histórico de vendas (480 milhões de euros, ou R$ 1,4 bilhão).
Essas cifras foram atingidas graças, principalmente, à contratação do jogador galês Gareth Bale pelo Real Madri, comprado do clube inglês Tottenham Hotspur por 101 milhões de euros (R$ 305 milhões) — a transferência mais cara da história do futebol.
As altas cifras do negócio geraram críticas dentro e fora da Espanha, que em julho registrou uma taxa de desemprego de 26,9%. Entre os jovens, a Espanha tem a segunda pior taxa de desemprego (56,1%) de toda a Europa, atrás apenas da Grécia.
Para o tabloide alemão Bild, é “absurda, perversa e sem medida” a contratação de um jovem de 24 anos por 101 milhões de euros (R$ 305 milhões) num país com esse nível de desemprego.
Para a rede de televisão americana CNN, a contratação mostrou que “o Real Madri não conhece a austeridade”.
Muitos também questionaram os meandros financeiros da transação que permitiu a contratação do jogador. Segundo Derk Jan Eppink, membro das comissões de Orçamento e Monetária e Econômica do Parlamento Europeu, a operação foi financiada pelo Bankia, banco salvo da falência em 2012 pelo governo espanhol e nacionalizado após ter sido resgatada com recursos da União Europeia. “O contribuinte europeu é quem pagará pelo acordo”, disse Eppink.
O economista José María Gay de Liébana, professor da Universidade de Barcelona e um dos maiores conhecedores da situação econômica dos clubes de futebol, diz que, para contratar Bale, o Real Madri conseguiu a garantia de quatro bancos espanhóis, em uma época em que o crédito está restrito na Espanha.
Liébana disse à BBC Brasil que Bale custou mais do que o faturamento de 14 clubes do campeonato espanhol, e que sua contratação não foi “moralmente correta”.
“Como cidadão de um país que vive uma situação de crise, acho que contratar um jogador por 100 milhões de euros é uma bofetada na sociedade”, disse.
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