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‘Eu era neonazista até ser presa e me apaixonar por uma negra’

Da BBC:

Angela King lembra quando foi a um bar já esperando problemas. A neonazista chegou no estabelecimento no sul da Flórida, nos Estados Unidos, acompanhada de uma gangue de violentos skinheads.

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Eles odiavam negros, judeus e eram extremamente homofóbicos. Um deles era seu namorado – naquela época, King não ousava admitir que era secretamente gay.

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A jovem escondia sua identidade sexual. “Eu sabia que tinha que manter isso para mim. Minha mãe costumava dizer, ‘eu nunca vou parar de te amar… desde que você nunca traga um negro ou uma mulher para casa’.”

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King começou a ir para a escola pública aos 10 anos, quando sua família se mudou. Ela sofria com a perseguição de colegas por estar acima do peso e tinha baixa autoestima. Mas quando o bullying verbal se tornou físico, ela finalmente rebateu.

“Quando eu tinha 13 anos, uma menina abriu a minha blusa na frente de toda a turma”, lembra. “Eu estava experimentando um sutiã e me senti completamente humilhada. Explodi com a raiva que segurava há tanto tempo.”

King revidou e percebeu que a violência lhe deu um senso de controle que nunca tinha sentido antes. Ela então se tornou a valentona da escola e da vizinhança.

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Em 1998, King se envolveu no roubo à loja de filmes pornôs. Em seguida, fugiu para Chicago com seu namorado, que era procurado por outro crime de ódio.

Semanas depois, porém, ela foi presa e levada para uma prisão federal em Miami.

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Na cadeia, pela primeira vez a jovem conviveu de maneira tão próxima com pessoas de culturas e experiências diferentes.

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“Eu estava na área de recreação fumando quando uma jamaicana me disse: ‘Ei, você sabe jogar cribbage?'”

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A partir daí, ela foi ampliando seu círculo de amizades e passou, inclusive, a fazer parte de um grupo de jamaicanas.

“Até então eu não tinha conhecido nenhuma pessoa de cor, e lá estavam essas mulheres que faziam perguntas difíceis, mas me tratavam com compaixão”, diz.

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King foi sentenciada em 1999 a cinco anos de prisão. Conheceu então uma jamaicana com quem não se deu muito bem no início. Logo, porém, elas foram percebendo que tinham experiências parecidas. E com o tempo perceberam que seus sentimentos iam além da amizade. “Percebi que tínhamos nos apaixonado. E pensávamos: ‘como afinal isso aconteceu?’.”

“Passamos muito tempo juntas e dividimos uma cela por um tempo. Ficou bastante sério, mas tínhamos que manter o segredo.”

Aquele era o primeiro relacionamento gay de ambas. A namorada de King acabou enviada a uma prisão em Tallahassee, capital da Flórida, e elas passaram a se escrever via intermediários. O relacionamento acabou meses depois, quando King foi transferida para a mesma prisão.

Quando King foi solta, em 2001, estava determinada a não cair nos mesmos erros.

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A jovem foi estudar Sociologia e Psicologia em uma faculdade comunitária – queria entender se sua experiência com o extremismo era comum. Em 2004, fez contato com o Centro do Holocausto e sentou-se com uma sobrevivente da tragédia causada pelos nazistas para contar sua história.

“Ela era muito severa, mas depois olhou nos meus olhos e disse: ‘Eu te perdoo’.”

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King dá palestras pela organização desde então. E em 2011 foi a uma conferência internacional onde encontrou outros ex-extremistas.

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Ela conheceu americanos que fundaram um blog chamado Life After Hate (“vida depois do ódio”) para compartilhar experiências. Juntos, eles decidiram criar uma ONG para ajudar pessoas a deixar comunidades de extrema-direita.

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“Toda a vida de pessoas em grupos extremistas gira em torno disso. Tudo em sua vida tem que ser mudado, desde a maneira como pensam às pessoas com quem elas estão ligadas e até as tatuagens que usam.”

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Uma frase que agora cobre seu pulso diz: ‘”O amor é a única solução”.