“Eu me sinto livre de um peso”, diz Waack após saída da Globo

Da Folha:
Após romper o silêncio com o artigo publicado na Folha (“Não sou racista, minha obra prova” ), o jornalista William Waack diz em entrevista que estuda propostas para voltar a trabalhar em breve, após um período de férias. “Eu me sinto livre de um peso, com horizontes amplos e avenidas abertas”, afirmou, em conversa por telefone.
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Na entrevista a seguir, ele fala ainda sobre o ônus de nunca ter sido “um profissional que jogasse para a torcida, no sentido de atuar para angariar aplausos”.
Em seu artigo, você diz que a Globo cedeu a grupos de pressão organizados na internet. No seu caso eram grupos identitários. Como você diferencia as demandas legítimas desses grupos dos excessos que você aponta?
William Waack – Eu não disse que a emissora cedeu. Eu afirmo que a revolução digital coloca empresas tradicionais em situação complicada, diante de desafios difíceis: Não foram apenas grupos identitários, mas grupos políticos organizados também. A questão não é o que eles defendem, mas, sim, como empresas grandes na era da revolução digital encontram equilíbrio diante da contestação que sofrem através de redes sociais.
Como os meios de comunicação devem enfrentar esse fenômeno sem ter seus interesses comerciais afetados pela ação desses grupos?
Interesses comerciais são legítimos, e os defendo. Para lidar com esse desafio são necessários visão estratégica e coragem para enfrentar momentos adversos, como a contestação ao papel dos próprios veículos.
Acho que ceder à gritaria é ruim sob qualquer perspectiva em qualquer lugar, especialmente num período de crise política e rápidas transformações, como vivemos. O mais preocupante não é o que grupos organizados fazem para destruir órgãos de imprensa, mas sim a percepção cada vez mais abrangente, por parte do grande público, de se sentir “órfão” em relação aos tradicionais guardiães da “verdade dos fatos”.
Além, o que é pior ainda, dessa percepção se ampliar ao ponto de muita gente atribuir a grupos grandes um papel na manutenção de padrões de miséria intelectual e pobreza política no nosso País, pois assim prosperam melhor. Estamos falando de percepções, evidentemente.
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Em sua defesa, ouvimos colegas lembrando de seu padrasto, Oliveiros Ferreira, de ascendência negra. Você alguma vez testemunhou qualquer manifestação racista no ambiente familiar?
Não, nunca fui testemunha nem participei de qualquer manifestação racista na minha vida. Quando menino, minha mãe tinha de trabalhar fora e me deixava com a Guilhermina, uma senhora negra que praticamente ajudou a me criar e de quem me lembro até hoje com enorme carinho.
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Você não é de sorriso fácil (o que virou piada de Marcelo Adnet) e já lhe atribuíram desavenças com colegas, como Christiane Pelajo, ex-‘JG’, e Cris Dias, durante a Olimpíada. Essa imagem afeta a aceitação de um comentário dito em tom de piada?
Nunca fui profissional que jogasse para a torcida, no sentido de atuar para angariar aplausos. Aproveito para desmentir qualquer atrito com Cris Dias. Nos demos muito bem, e fiquei muito feliz de trabalhar com ela, ou com Pelajo, cuja mudança de trabalho dentro da emissora nada teve a ver comigo, ao contrário de muita bobagem publicada.
Já tem novo destino profissional definido?
Estou de fato estudando várias possibilidades. Eu me sinto livre de um peso, com horizontes amplos e avenidas abertas. Não posso neste momento, por simples questão de educação, mencionar com quais instituições estou em contato. Estarei a postos para participar de um ano político tão decisivo para o Brasil como 2018, com certeza.
