Fã do “Mito” cai na real e reclama da manobra de Flávio Bolsonaro para abafar investigação sobre Queiroz

Publicado em 11 setembro, 2019 11:10 am
O ativista e empreendedor Carlos Nacli Bastos. ACERVO PESSOAL

Reportagem de Afonso Benites no El País Brasil.

Há quase um ano, em plena campanha eleitoral, o empreendedor Carlos Henrique Nacli Bastos concedeu uma entrevista ao EL PAÍS defendendo o uso do WhatsApp na campanha de Jair Bolsonaro como ferramenta de combate às fake news que, segundo ele, eram disseminadas contra o então deputado federal. Agora, pela primeira vez, um dos cem grupos administrados por ele e seus colegas, furou a bolha dos apoiadores e passou a criticar o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). O parlamentar tem articulado contra a CPI da Lava Toga, uma das bandeiras dos movimentos anticorrupção no país. As primeiras queixas de Nacli Bastos e aliados foram levadas diretamente às 15.000 pessoas que os acompanham no ZapBolsonaro.

Pergunta. Por qual razão vocês resolveram criticar o Flávio Bolsonaro?

Reposta. O senador Flávio Bolsonaro desde que foi pego no caso Queiroz ao invés de usar o lema tão defendido pelo seu pai “conhecereis a verdade e ela vos libertará” tem feito exatamente o contrário. Ele está fazendo exatamente a mesma coisa que os caciques petistas, emedebistas e peessedebistas fizeram quando seus nomes surgiram em delações, está se protegendo pelo foro privilegiado e enrolando como pode o STF. Isso para nós, que lutamos tanto em defesa da Lava Jato e a favor de uma limpeza no país, já serve como prova de culpa. Já diz o ditado: “Quem não deve não teme”.

P. As críticas não podem atingir o Governo Bolsonaro?

R. As críticas infelizmente atingem, sim, o Governo, porque o próprio presidente nacional do PSL [Luciano Bivar] já se posicionou contra a abertura da CPI. Isso demonstra que o partido do presidente não está em sintonia com o povo que sai nas ruas há tantos anos. Acredito que o Governo Bolsonaro tem que escolher qual lado ele quer ficar, se do lado do visível acordão comandado pelo centrão ou do lado do povo. O povo em sua maioria está cansado de ser enganado e manipulado e quanto mais tempo demorar para o Governo deixar claro qual lado está, maior será o desgaste.

P.  Vocês fazem uma defesa enfática da Lava Jato. Acha que ela está protegida pelo presidente Bolsonaro?

P. Para nós, a Lava Jato é o estandarte de esperança num país tão marcado pela corrupção e pelo jogo de toma-lá-dá-cá que nos levou à beira do caos. Infelizmente, estamos vivendo um período de paixão cega, onde tentam nos dividir numa disputa entre direita e esquerda. O que acontece é que a maioria do povo não sabe que os nossos verdadeiros inimigos estão em Brasília. Enquanto ficamos deslumbrados, a turma que está no poder e não quer que a Lava Jato continue está trabalhando a mil nos bastidores para fazer com que as importantes conquistas sejam colocadas para debaixo do tapete.

É com muita tristeza que digo que nem no Governo do PT a Lava Jato esteve tão ameaçada. Provas disso são a proibição da utilização dos dados do COAF nas investigações, a decisão da 2ª Turma do STF em anular a condenação de [Aldemir] Bendine, sentença que pode ser usada para anular outras cem condenações da Lava Jato, a Lei de Abuso de Autoridade, que pode beneficiar Renan Calheiros e [Roberto] Requião, e agora por último a visível guerra para tentar barrar a abertura da CPI da Lava Togas.

(…)

PS do DCM:

O PT, enquanto estava no governo, nunca investiu contra a Lava Jato e sempre respeitou a autonomia dos procuradores e da Polícia Federal, no que foi interpretado como “republicanismo suicida”.